Jornal Estado de Minas divulga blogs de pessoas com deficiência

"Nós não fomos visitar o motel in loco, mas soubemos que só tinha um adaptado na cidade", brinca Telma de Oliveira, de 52 anos, em meio às risadas do marido, Gilberto Porta, de 51. Ambos têm deficiência de locomoção: Gilberto, o Gil, é cadeirante, e Telma anda com auxílio de órtese (dispositivo destinado a corrigir uma função muscular, esquelética ou neurológica) e bengala. O casal é responsável pelo site e blog BH Legal (bhlegal.net), incrível iniciativa de um guia de produtos e serviços, exclusivo da capital mineira, para pessoas com deficiência.

foto de Gil e Telma

Gil e Telma, em pose igual à da primeira foto que registrou a união dos dois como namorados, são os responsáveis por inédito guia de serviços on-line para portadores de deficiências.

A tecnologia está presente desde o início da história dos dois. Eles se conheceram por meio de uma rede no site Entre amigos, destinado a pessoas com deficiência. Na época, Gil morava em São Paulo (SP) e eles conversavam pelo esquecido ICQ, programa de bate-papo virtual. Depois do primeiro encontro em terras paulistas, ele veio visitar Telma em Minas. De iguaria em iguaria, a família inteira conquistou Gilberto também pelo estômago e ele não voltou mais para a antiga morada. O primeiro desafio, em Belo Horizonte, veio quando precisou trocar uma bolsa de gel que havia furado. "Normalmente elas têm garantia de 30 dias e no 31º furam", ironiza Telma. O marido conta que ninguém sabia onde comprar uma nova bolsa e que, por fim, pediu ao irmão para trazer uma de São Paulo.

Quem e onde – O problema foi o ponto de partida para a criação do BH Legal. Telma explica que o setor de ortopedia e artigos cirúrgicos é até bom, mas não costuma haver muita divulgação. "Belo Horizonte é uma cidade grande. Alguém em algum lugar faz um sapato sob medida. Mas onde eles estão?", questionou-se na época. Para economizar tempo e dinheiro gastando horas em cima de catálogos telefônicos para descobrir as lojas e serviços, eles resolveram criar o próprio guia.

Em meados de 2006, o casal fez um banco de dados e colocou o site no ar. A página virtual tem cerca de 500 visitantes por dia. Ela é dividida em 10 seções, entre elas comércios e serviços, empregos, turismo, governo, lazer etc. Em cada item, eles indicam o nome, endereço e contatos do estabelecimento. Alguns posts recebem selos de teste e aprovação. Em outros, há dicas, como a existência de provadores exclusivos para cadeirantes na loja de uma grande rede de roupas. Na home, eles deixam claro que a iniciativa é particular e independente. Além disso, eles destacam que as informações são enviadas por amigos ou colhidas em publicações especializadas, e que toda dica é sempre bem-vinda. Os leitores, volta e meia, dão os pitacos: "Eu fui ao motel adaptado e é muito bom, mas não tem hidromassagem" ou "essa não é a única autoescola com carros adaptados, tem outra no Padre Eustáquio".

Toda a programação do site foi feita por Gilberto, que se preocupou em fazer um projeto com recursos de acessibilidade. Em um dos menus, há um mapa das teclas de atalhos para cada comando. Gil é tetraplégico e tem o movimento das mãos reduzido. Ele explica que cegos e pessoas com algum tipo de doença que provoque espasmos não usam o mouse. Algumas pessoas clicam nas teclas utilizando objetos presos à boca.

Espaço para conversar

Como o site BH Legal tem viés mais estático, o casal sentiu falta de um espaço para uma prosa com o leitor e criou um blog de mesmo nome. Polêmicas como a demora na aprovação de um projeto de lei de aposentadoria em tempo especial para pessoas com deficiência são os posts mais lidos e comentados. Outra seção campeã de leitura são as crônicas da colaboradora Adriana Lage sobre as viagens que fez. Gil conta que a mais acessada já foi vista 4,4 mil vezes.

Um dos motivos esbarra com técnicas de SEO (otimização de sites para motores de buscas): diversas pessoas buscam por uma música do Jota Quest no Google e caem na crônica intitulada "Onde tenha sol, é pra lá que eu vou". As últimas publicações do blog vão para a home do site. Assim, sempre tem notícia fresquinha no endereço.

"Você nunca sabe quando vai se deparar com escadas, se vai conseguir vaga em estacionamento, se o local que escolheu terá um banheiro adaptado. A internet abriu muitas portas para pessoas com deficiência de locomoção. Uma delas é a da vida social. É difícil sair de casa, tem essa peculiaridade", explica Telma. Ela acrescenta que, além da troca de ideias e informações, a web ajudou até na educação, por meio de seus cursos on-line.

Gil diverte-se ao lembrar que muitos internautas fazem confusão e imaginam que o site é do governo. "Eles fazem uma busca na internet, chegam a uma página específica do BH Legal e começam a reclamar da falta de ação dos representantes como se fossem nós dois", conta. Ele explica que a ideia é tornar o site mais conhecido por meio da integração com redes sociais, como Twitter e Facebook. "A gente tem que mostrar a cara", justifica Telma. O marido logo completa: "Se não for assim, o comerciante vai se desculpar, como sempre, dizendo que não vai nenhum deficiente. Sai a turma toda, a casa não é acessível? Todo mundo boicota".

Bengala legal

» Se tornou referência em blogs sobre deficiência. Toda a estrutura foi desenvolvida de forma a oferecer acessibilidade web aos leitores. Escrito por Marco Antonio de Queiroz, conhecido como MAQ, que é cego. Trata de diferentes temas, como educação inclusiva, legislação e trabalho. Tem uma seção só com audiodescrições.
bengalalegal.com

Mão na roda

» Blog escrito a 10 mãos: quatro blogueiros cadeirantes e uma "andante". Tem guia de atrações turísticas com avaliações de acessibilidade de cada local. Em um mapa é possível identificar locais acessíveis no Rio de Janeiro (RJ). Há também conteúdo sobre temas diversos como esporte, equipamentos e saúde do deficiente.
maonarodablog.com.br

Blog da audiodescrição

» Traz as últimas novidades da audiodescrição no Brasil e no mundo. Também busca apoio para investimento na área. Segundo os blogueiros, os produtores culturais veem a audiodescrição ainda como despesa e não como investimento em um público potencial de 25 milhões de consumidores. Traz as leis, e toda a trajetória da batalha por mais acessibilidade no país.
blogdaaudiodescricao.com.br

Entre amigos

Rede de informações sobre deficiência. Tem o objetivo de disponibilizar informações, orientar e oferecer diferentes tipos de suporte, via internet. Tem notícias, calendários de eventos, e na seção Tribuna Livre é possível publicar seus próprios textos sobre o tema.
entreamigos.com.br

Ranking do Google

André Carneiro, diretor de marketing da The Agency, explica que os padrões de acessibilidade são a base para qualquer trabalho de otimização de sites. "Em meados de 2005, ter uma forma indicada pela W3C (consórcio internacional de modelos para web) já representava um diferencial para aparecer mais bem ranqueado no Google", conta. Ele explica que os robôs dos buscadores são como os deficientes visuais: eles não enxergam o conteúdo para indexação se ele não estiver acessível.

Segundo Carneiro, desenvolver sites acessíveis hoje é muito fácil. Existem plataformas prontas, como o WordPress, que permitem que pessoas sem conhecimento técnico aprofundado construam sites acessíveis e não quebrem a cabeça com códigos. Ele conta que, normalmente, o maior obstáculo é a falta de conhecimento de quem tem o poder de decisão sobre o projeto. "Já vi donos de empresa pedindo, por exemplo, para retirar legendas de fotos, alegando que estavam comprometendo a estética da página. Eu respondo sempre que projetos que priorizam a estética acima de tudo falham lindamente", ressalta.

Fonte: Jornal Estado de Minas – coluna Tecnologia

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