Zero Hora experimenta o recurso de audiodescrição no Assim Vivemos

A jornalista Camila Nunes conta como é ir a uma sessão de cinema que recebe deficientes visuais

Zero Hora no Assim Vivemos

Os dados são do IBGE: mais de 45,6 milhões de brasileiros, ou 23,9% da população, possuem algum tipo de deficiência.

Iniciativas como o festival Assim Vivemos, que é realizado em Porto Alegre até domingo, indicam que o Brasil começa a despertar para o fato de que essa significativa parcela da população merece exercitar o direito básico de ser cidadão.

O Assim Vivemos é um festival de cinema inclusivo, reunindo filmes de diversos países. As sessões oferecem recursos de acessibilidade, como audiodescrição e catálogos em Braille para deficientes visuais; legendas e interpretação em Libras nos debates para deficientes auditivos; e acesso para cadeirantes.

Para testar o recurso da audiodescrição, Zero Hora foi conferir os filmes de quarta-feira à tarde. Como era minha primeira vez no CineBancários, onde está ocorrendo a quinta edição do festival, contei com a ajuda do fotógrafo Jean Schwarz para me deslocar no ambiente. A sessão é gratuita, mas os ingressos precisam ser retirados na bilheteria. Enquanto eu aguardava os tíquetes, uma cena, digamos, inusitada aconteceu. Fui alertada pelo fotógrafo que a moça da bilheteria tentava me entregar os ingressos. Como não enxergo, o ideal seria que ela levasse as entradas até a minha mão. Longe de pretender "crucificar" a funcionária, mas, afinal, estávamos em um evento voltado para as pessoas com deficiência. Logo, é importante perceber esses detalhes.

Com os ingressos na mão, era hora de pegar os fones usados para a audiodescrição. Um funcionário do local, sem se apresentar, já chegou colocando os fones na minha cabeça e saiu explicando os comandos para usar o volume. Assim como no episódio anterior, foi uma atitude não muito recomendável para os que lidam com quem não enxerga, pois, ao não se identificar durante uma aproximação, corre-se o risco de assustar os cegos.

A sessão exibiria Linha Lateral, filme russo de 2009 que conta a história de dois homens russos e dois chechenos que tiveram suas pernas amputadas durante uma operação antiterrorista da Rússia na Chechênia e que disputavam juntos o Campeonato Russo de Futebol para amputados. O documentário mostra, com bastante sensibilidade, como o esporte pode colaborar no processo de inserção social de pessoas com deficiência, além de trazer uma lição de como é possível construir uma relação de respeito e amizade entre povos historicamente rivais.

Entre um diálogo e outro, os deficientes visuais que vão às sessões ouvem a narração minuciosa dos detalhes das imagens mostradas na tela. A descrição é realizada pela atriz gaúcha radicada no Rio de Janeiro Graciela Pozzobon. Já a tradução para o português das falas dos personagens conta com uma voz masculina.

Fazer com que as pessoas cegas "enxerguem" por meio dos olhos dos outros é uma tarefa que exige, acima de tudo, muita dedicação. O audiodescritor precisa seguir um roteiro elaborado especialmente e ter familiaridade com o conteúdo que está narrando. É inegável que o recurso da audiodescrição aumenta o poder de compreensão de quem não enxerga, seja um filme, uma peça de teatro, um programa de televisão, uma exposição etc.

Na minha primeira sessão de cinema com audiodescrição, eu pude saber, por exemplo, que os jogadores do filme jogam futebol utilizando muletas. Isso foi fundamental para me ajudar a captar a mensagem do filme. E o melhor de tudo isso: com a autonomia de não precisar pedir ajuda para que ninguém me descrevesse as imagens.

por Camila Nunes – camila.nunes@zerohora.com.br
*A jornalista de Zero Hora tem deficiência visual.

Fonte: Zero Hora

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