Não existe política pública de acessibilidade para a cultura

Desde muito cedo, a mãe de Márcia Beatriz dos Santos percebeu que havia algum problema nos olhos da filha. Depois de consultar muitos médicos, veio o diagnóstico: glaucoma congênito. Na época, ainda criança, Márcia já não tinha a visão do olho direito e um percentual muito baixo no esquerdo. Aos onze meses de idade, ela já dava início à primeira de muitas cirurgias. Hoje, formada em Ciências Sociais e trabalhando na Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, Márcia tornou-se responsável por uma pesquisa sobre Acessibilidade em Museus. Apaixonada por arte e inconformada com a falta de política pública de acessibilidade para a cultura, usou sua experiência para ampliar o acesso de outras pessoas com deficiência aos equipamentos culturais da cidade.

Falta política pública de acessibilidade. Márcia Beatriz sorrindo, flores ao fundo

A técnica em cultura Márcia Beatriz trabalha pela inclusão cultural de pessoas com deficiência

Portal Mara Gabrilli: Como foi concluir a graduação em Ciências Sociais depois que havia perdido totalmente a visão? ocê precisou da instituição para lhe garantir algum tipo de apoio para concluir o curso?

Márcia Beatriz dos Santos – Sempre frequentei a escola regular, sem utilizar recursos para baixa visão, uma vez que eu não era identificada como tal e, além disso, na década de 70 as escolas não propiciavam atendimentos diferenciados para as pessoas com deficiência. Quando ingressei na universidade ainda conseguia escrever e ler se a folha estivesse muito próxima de meu rosto. Porém, nos últimos semestres foi aumentando minha dificuldade e comecei a utilizar leituras realizadas por voluntários, textos gravados e provas orais. Tive todo o apoio da coordenadora do curso para que eu pudesse realizar o Trabalho de Conclusão de Curso em Ciências Sociais. No entanto, a instituição não oferecia recursos para o ensino de pessoas com deficiência visual, o que, atualmente, é uma realidade.

Somente após concluir a graduação frequentei o Centro Louis Braille para aprender o Sistema Braille, locomoção e mobilidade e a legislação para pessoas com deficiência. Nessa época, conheci outras pessoas com deficiência visual, o que propiciou a vivência e a troca de experiências, assim como possibilitou a diminuição da ansiedade que circundava aquele momento que eu estava vivendo. Isso foi possível através do compartilhamento de angústias com pessoas que passavam pelas mesmas e/ou parecidas dificuldades que eu estava encontrando para ingressar no mundo do trabalho.

PMG: Você é funcionária da Prefeitura de Porto Alegre. Como foi fazer a prova para o concurso? Contou com algum recurso de acessibilidade para realizar o exame?

Márcia – Um ano após a conclusão da graduação, realizei o concurso para Técnico em Cultura da Secretaria Municipal da Cultura da Prefeitura de Porto Alegre. Minha dificuldade começou no momento da inscrição, quando era obrigatória a apresentação do atestado médico com a Classificação Internacional de Doenças (CID). Porém, o médico que acompanhava meu tratamento não atestava minha cegueira e, ao mesmo tempo, a comissão do concurso não aceitava o laudo que ele estava enviando. Após apresentar três atestados desse mesmo médico tive minha inscrição homologada. Para a realização da prova contei com um “ledor” que realizava a leitura da prova. Esse recurso possibilitou que o exame fosse desenvolvido tranquilamente, pois a pessoa respeitou meu ritmo.

PMG: Hoje, o índice de participação de candidatos com deficiência em concursos públicos no País é inferior a 5%. Na sua opinião, a que deve essa participação tão baixa?

Márcia – Acredito que a baixa participação de candidatos com deficiência nesses concursos se deve, primeiramente, à dificuldade de aceitação da deficiência pela família que, com o intuito de proteger o deficiente, não estimula a inserção deste no mercado de trabalho. Da mesma forma, o ensino que hoje é oferecido para as pessoas com deficiência, em muitos casos, não as qualifica para concorrer em concursos públicos. Além disso, muitas pessoas que adquirem uma deficiência não são adequadamente reabilitadas, dificultando muitos aspectos da vida, e, principalmente, o retorno ao trabalho. Por fim, é importante destacar, a grande maioria das pessoas com deficiência desconhece a legislação sobre a reserva de mercado.

PMG: Como é a acessibilidade na cidade de Porto Alegre? E as opções de cultura para a população com deficiência?

Márcia – Porto Alegre, desde 1994, vem desenvolvendo projetos de acessibilidade na cidade, horas com mais intensidade, horas com menos. Atualmente, como nas demais cidades, o tema está em voga. No município, há uma frota parcial de ônibus adaptados, alguns adequados e outros não. Algumas ruas contam com rampas e/ou piso podotátil, e prédios foram adaptados, entre eles o Museu de Porto Alegre Joaquim José Felizardo. Diante disso, percebe-se que o tema necessita ser aprofundado, já que recebe ênfase em aspectos estruturais, ignorando-se, muitas vezes, aspectos comunicacionais e atitudinais.

No entanto, há uma tentativa de melhorar esses aspectos que apresentam falhas. Na área cultural, vários espetáculos foram realizados com acessibilidade plena para pessoas com deficiência. Destaca-se o espetáculo "Tangos e Tragédias", em cartaz nas temporadas de verão de Porto Alegre desde a década de 80, o qual teve uma sessão com audiodescrição, sendo possível através desse recurso que pessoas cegas ou com baixa visão entrassem em contato com o espetáculo. Elas puderam conhecer o ambiente do Teatro São Pedro, o cenário, a iluminação, a caracterização, os gestos, a movimentação e as expressões dos atores. Também o espetáculo adulto "Inimigos de Classe" do diretor Luciano Alabarse teve uma de suas apresentações audiodescrita, possibilitando o acesso pleno das pessoas com deficiência visual ou baixa visão a todo o conteúdo visual do espetáculo: cenário, figurinos, luz, caracterização dos personagens e suas expressões, gestos e movimentos em cena. O filme "Menos que Nada", longa de ficção com direção de Carlos Gerbase, teve uma sessão audiodescrita em cinema, além de contar com audiodescrição no DVD e legendas em português para surdos. Percebe-se, com isso, que o futuro na área de acessibilidade em ambientes culturais é promissor. Entretanto, as atividades realizadas ainda são pontuais, provavelmente devido à falta de informações de produtores e diretores a respeito da acessibilidade para pessoas com deficiência. É importante destacar ainda que a empresa Mil Palavras Acessibilidade Cultural, em parceria com o Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, promoveu curso de capacitaçãoem audiodescrição, com ênfase na formação de profissionais, para que venham a atuar como audiodescritores roteiristas, narradores e consultores, através de noções sobre a deficiência visual, de um conhecimento amplo sobre o recurso da audiodescrição e de uma série de experiências práticas.

PMG: Por que decidiu fazer uma pesquisa sobre Acessibilidade em Museus?

Márcia – Sempre tive uma participação na vida cultural de Porto Alegre, pois desde jovem me interesso por teatro, cinema, literatura e museus. No entanto, tive algumas dificuldades para acessar os espetáculos, pois os locais não ofereciam recursos acessíveis para pessoas com deficiência visual. No momento em que fui trabalhar no Museu de Porto Alegre Joaquim José Felizardo, equipamento da Coordenação da Memória Cultural – Secretaria Municipal da Cultura –, deparei-me com uma diretora sensível às questões de acessibilidade, a qual convidou-me para cursar a Especialização Patrimônio Cultural e Identidade na Universidade Luterana do Brasil/ULBRA Canoas, local onde ela leciona. A pesquisa intitulada "Acessibilidade em museus: o caso do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo" é fruto de minha monografia de conclusão de curso, que teve orientação da Profª. Drª. Maria Angélica Zubaran, diretora do Museu. Para a realização desse estudo, fiz visitas técnicas em instituições museológicas como a Pinacoteca do Estado de São Paulo, o Museu de Arte Moderna– MAM e o Museu do FutebolPacaembu, consideradas referências nacionais em acessibilidade, com o intuito de conhecer e apropriar-me das ações de acessibilidade, para uma possível implementação no Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo.

PMG: Que resultados esse estudo apontou?

Márcia – De acordo com o objetivo central realizou-se um diagnóstico da acessibilidade no Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo, apontando possíveis estratégias para ampliar o acesso de pessoas com deficiências nessa instituição e melhor adequá-la à legislação vigente, de forma a torná-la referência em acessibilidade no Rio Grande do Sul. Conforme se observou no decorrer deste estudo, o Museu é considerado adaptado em relação à acessibilidade. A partir da análise dos documentos da instituição, verificou-se que no ano de 2002 foram realizadas adaptações no aspecto físico do edifício em que se localiza o Museu, tais como instalação de elevador, banheiro adaptado e maquete tátil do solar Lopo Gonçalves, construído entre os anos de 1845 e 1850, prédio onde se localiza o Museu Histórico de Porto Alegre. Notou-se, contudo, que no aspecto sensorial as normas de acessibilidade não são plenamente atendidas, fazendo com que 42% da instituição seja classificada como não acessível e 46% como acessível.

PMG: O que foi permitido desenvolver com base na pesquisa?

Márcia – Esses resultados embasarão a implementação de projetos que visam atender de maneira mais completa ao público com deficiência. Isso está sendo realizado através de ações, como: a oficina “Conhecendo Porto Alegre através dos sentidos”, na qual o público com deficiência visual utiliza-se do audioguia para conhecer a exposição denominada "O Solar que virou Museu – memórias e histórias" através da leitura dos painéis e da descrição das imagens e dos objetos históricos e arqueológicos que compõem a exposição. Além disso, o catálogo que complementa essa mostra está disponível em braille, possibilitando a autonomia do público. Também foi realizada a restauração da maquete tátil, a confecção de uma maquete da fachada do solar, destacando os detalhes do prédio e a reprodução da magnólia, árvore centenária que se localiza em frente ao Museu. Esses materiais, juntamente com alguns objetos históricos e arqueológicos, estão disponíveis ao toque. Destaco, ainda, que o Museu conta com uma equipe – direção, recepção, funcionários e estagiários -, preparada para se relacionar, conduzir e orientar esse público com deficiência dentro da instituição, mantendo assim uma postura inclusiva para desenvolver este projeto.

PMG: Que recursos acessíveis você considera importantes para que o cego ou a pessoa com deficiência visual interaja plenamente com a arte?

Márcia – Vários recursos acessíveis são importantes para que a pessoa com deficiência visual interaja com a arte. No cinema e no teatro, a audiodescrição. Em exposições destaco o audioguia, objetos ou réplicas disponíveis ao toque e maquete tátil do edifício da instituição, sendo essa a única forma de apreensão espacial que a pessoa com deficiência visual possui de um edifício. Ainda é importante a instalação de piso podotátil para facilitar a locomoção e a sinalização com etiquetas em Braille dos locais e dos objetos que compõem uma exposição. Através desses recursos, a pessoa com deficiência visual tem autonomia para acessar plenamente ambientes culturais e debater conteúdos que emergem após assistir algum espetáculo ou visitar uma mostra.

PMG: O que o Poder Público tem feito para promover acessibilidade na cultura?

Márcia – No Brasil não existem políticas públicas de acessibilidade em ambientes culturais. Esta ausência tem dificultado a inclusão das pessoas com deficiência na sociedade. Em Porto Alegre, porém, destaco algumas atividades pontuais que foram realizadas pelo poder público no último ano. A Prefeitura de Porto Alegre, através da Secretaria Municipal da Cultura – Coordenação da Memória Cultural, realizou a abertura da exposição "O Solar que virou Museu – memórias e histórias", com audioguia, integrando as comemorações dos 240 anos de Porto Alegre. Através do Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre (FUMPROARTE), esta secretaria vem promovendo, no ano de 2012, a acessibilidade das pessoas com deficiência visual à produção artística e cultural, financiadas com os recursos desse fundo. Destaca-se a peça "Nossa vida não vale um Chevrolet", realizada no mês de abril, sendo esse o primeiro espetáculo de cinco projetos já selecionados com audiodescrição. Nesse mês, também ocorreu o espetáculo de dança aéreacom audiodescrição. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 2011, no Salão de Atos da Reitoria realizou audiodescrição de "Exotique, do Grupo Tholl", um espetáculo de circo-teatro, grandioso, intenso e absolutamente visual, com figurinos muito elaborados, elegantes, luxuosos e constantes jogos de luz. Uma bela história, contada através de malabarismos, acrobacias, contorcionismo e equilibrismo. Os espectadores com deficiência visual chegaram meia hora antes do início do espetáculo e tiveram a oportunidade de subir no palco para conhecer o elenco. Tocaram em seus figurinos e cada um dos 17 artistas descreveu o que estava vestindo e falou um pouco sobre seu personagem. A UFRGS, a partir de março de 2012, vem exibindo filmes com audiodescrição uma vez por mês. Trata-se do projeto de extensão com audiodescrição: "Sessões com Audiodescrição na Sala Redenção de Cinema Universitário". Além disso, promoveu, no mês de maio, o "II Seminário Nacional de Acessibilidade em Ambientes Culturais" com conferências, mesas-redondas e oficinas de profissionais e pesquisadores da área de acessibilidade cultural. Destaco a oficina realizada no Museu da UFRGS com kit pedagógico acessível da exposição "Oretataipy" com esculturas de animais disponíveis ao toque e cartilhas em Braille com a descrição das esculturas e das imagens dos cartões postais, além de documentário em DVD com audiodescrição. Também a Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência promoveu em Porto Alegre a exposição "PARA TODOS – Movimento Político das Pessoas com Deficiência", que se propõe a apresentar para o público a história dessa trajetória, de maneira acessível, inclusiva.

Fonte: Portal Mara Gabrilli

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