Cinema, desigualdade e expressão

Uma das formas mais exitosas de um governo implantar uma ideologia, seja ela de qualquer natureza, é através das artes. Assim fizeram russos e norte-americanos durante a Guerra Fria com a construção de centros culturais e financiamento de artistas em países estratégicos, além da exportação de livros, filmes, filarmônicas, peças teatrais e demais produtos da indústria cultural. De forma plena, sensível e reflexiva, a possibilidade do diálogo e expansão do conhecimento ganha novos contornos – e, geralmente, atinge seu objetivo.

A partir de hoje, Natal (RN) será uma das vinte e seis capitais, mais o Distrito Federal, que receberá o "7º Festival de Cinema e Direitos Humanos da América do Sul", projeto realizado pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos, em parceria com o Ministério da Cultura. São trinta e sete filmes, de diferentes países, cujas temáticas giram em torno da diversidade étnica, do respeito ao semelhante, das agruras sociais e da violência que assola um continente rico em matérias-primas e capital humano, porém desigual como nenhum outro.

Com entrada franca, o evento deste ano homenageará o cineasta Eduardo Coutinho, um dos principais documentaristas do Brasil. Se no restante do país o festival funcionará até o dia 20 de dezembro, na capital potiguar, os filmes serão exibidos no IFRN – Campus Avançado Cidade Alta, entre os dias 07 e 13 deste mês – menos no dia 09, sexta-feira.

A organização garante acessibilidade nas sessões com audiodescrição e open caption; longas-metragens inéditos com atores renomados, como Denise Fraga, Antonio Petrim e Caio Blat.

No site oficial (www.cinedireitoshumanos.org.br), a ministra de Estado Chefe da secretaria, Maria do Rosário, revela a expectativa. "Esperamos que todos os espectadores da Mostra reflitam sobre os temas abordados nos filmes. Que incorporem essas reflexões às suas práticas cotidianas ao longo de suas vidas e sejam, desta maneira, promotores e defensores dos valores mais caros aos Direitos Humanos, ajudando a construir um País que garanta os direitos básicos de todo o seu povo" – com 50 mil assassinatos e 50 mil mortos no trânsito por ano, a iniciativa tem méritos.

Um dos destaques da programação é "Hoje", de Tata Amaral, filme vencedor de cinco prêmios no Festival de Brasília de 2011 (melhor filme, roteiro, fotografia, direção de arte e atriz para Denise Fraga). A narrativa é transcorrida em um dia. Vera (Denise) tenta reconstruir sua vida, depois de viver na clandestinidade durante o Regime Militar, nos anos 1970. Ao receber uma indenização pelo desaparecimento do marido, vinte anos depois, ela sente nova angustia com o repentino retorno do cônjuge.

Como homenageado, Eduardo Coutinho ocupará espaço com três películas: "Cabra Marcado para morrer" (1984) e "O fio da memória" (1991) e "Santo Forte" (1999). Todos imperdíveis para quem gosta da Sétima Arte ou alimenta a esperança de ver um país menos tacanho – mesmo que apenas na ficção das telas. Já "Batismo de Sangue", dirigido por Helvécio Ratton, trata da participação de frades dominicanos na luta clandestina contra a ditadura – é uma adaptação do livro homônimo de Frei Betto, o guru da Teologia da Libertação, vencedor do prêmio Jabuti de 1983.

Dos internacionais inéditos comercialmente no país, o colombiano "Chocó", de Johnny Hendrix Hinestroza, e "A demora", indicado oficial do Uruguai ao Oscar deste ano, merecem atenção. Aquele foi lançado no Festival de Berlim 2012 e atingiu sucesso de público em sua terra natal, com meio milhão de expectadores. A obra destaca os problemas do desemprego e da violência doméstica. Este, também lançado em Berlim, mostra uma mulher de família pobre que não consegue internar seu idoso pai em um asilo e acaba tomando uma atitude drástica.

Fonte: Jornal de Hoje

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