Pastoral avança no debate sobre inclusão de pessoas com deficiência

"Ao longo da história, se não fossem as iniciativas inspiradas em Jesus Cristo e perpetuadas pela Igreja Católica, um incontável número de pessoas com deficiência não teria sobrevivido". A afirmação é do coordenador da Pastoral da Pessoa com Deficiência da arquidiocese de São Paulo (SP), Antônio Carlos Munhoz, conhecido como "Tuca", que reflete sobre o papel da Igreja na luta contra o preconceito e a favor da inclusão dessas pessoas.

Tuca Monhoz falando ao microfone

"Sabemos que, em vários períodos da história, essas pessoas foram estigmatizadas, excluídas, expulsas das cidades e até mesmo mortas", diz. Tuca reforça, presidente da pastoral que a Igreja Católica fundou inúmeras instituições para o acolhimento e foi mostrando para a sociedade o que era necessário fazer.

Para Tuca, o exemplo da Igreja, espelhado nas atitudes de Cristo, trouxe para o mundo o alerta de que as pessoas com deficiência são filhas de Deus e têm direitos. O reflexo dessa postura na sociedade foi a criação de leis que buscam a inclusão e reconhecem as pessoas com deficiência como cidadãos.

"Hoje, nós vivemos uma situação bem melhor do que há poucos anos atrás, quando não tínhamos sequer condições de sair às ruas", comenta. Mas Tuca acredita que a Igreja precisa dar um passo além e puxar a sociedade para a frente no que diz respeito à inclusão. "É preciso mostrar que dá para fazer mais e que é possível avançar", completa.

Mudanças graduais

Amelia Galan

A estudante de teologia Amélia Galan, que também integra a Pastoral, concorda com Tuca e acredita que ainda é necessário fazer muito para garantir o acesso pleno das pessoas com deficiência à Igreja. Amélia é portadora de amiotrofia espinhal e perdeu os movimentos nas pernas aos 12 anos de idade. O contato com a Fraternidade Cristã das Pessoas Doentes Crônicas e Deficientes Físicas (FCD) foi fundamental para que ela conquistasse sua autonomia.

"Quando eu estava dentro de casa e não sabia que podia ter vida como as outras pessoas, sair e até ser visitada, achava que era inferior e que não teria espaço na sociedade como os outros", conta.

Como membro da FCD, Amélia descobriu que tudo é possível e que a deficiência não é barreira para a participação na vida de Igreja, na sociedade e na faculdade. "A Fraternidade mostrou para mim que tudo é possível, que Deus não faz nada errado e que a pessoa com deficiência, a partir do momento em que transforma a sociedade, passa a ser valorizada e respeitada também", salienta.

A consultora em inclusão social Maria Rosimari da Silva tem percebido uma abertura maior da Igreja no Brasil para o assunto a partir da Campanha da Fraternidade (CF) de 2006, que abordou o tema Fraternidade e Pessoa com Deficiência.

Rosimari é mãe de Arthur, que tem síndrome de Down e está noivo de Ilka, também portadora da síndrome. A consultora luta tanto na justiça quanto junto às autoridades eclesiais para formalizar o casamento dos dois. "Cada vez mais nós estamos avançando nessa perspectiva de que a Igreja receba todas as pessoas com deficiência", conta.

Para Rosimari, as barreiras ainda são muitas e estão relacionadas tanto à arquitetura dos templos como às atitudes das pessoas. Porém, ela enxerga na participação, por meio de movimentos como a Pastoral, a oportunidade de as pessoas com deficiência conquistarem um espaço que é direito de todos.

Dona Elza

Dona Elza nasceu cega e reclama da falta de material de apoio em braile para as atividades litúrgicas. "Eu não tenho uma letra de canto, uma leitura, um folheto", lamenta a deficiente visual, que frequenta a Paróquia Nossa Senhora Aparecida, no bairro Ipiranga, em São Paulo.

Para ela, enquanto não houver treinamento de líderes, as mudanças não vão acontecer de modo efetivo. Caso contrário, muita gente poderá se "bandear" para outros credos. "A frequência do deficiente visual católico é muito pequena. Sabe por quê? A bibliografia acessível para nós é muito pequena", conta.

Pastoral da Pessoa com Deficiência

Tuca avalia como "boa" a participação das pessoas com deficiência nas atividades da pastoral, mas muito distante do ideal. "Gostaríamos muito que houvesse uma participação ainda maior", conta.

As ações da Pastoral têm buscado estimular a participação das pessoas com deficiência, criando ações para que haja igualdade de oportunidades com os demais na vida comunitária. O trabalho oficial da Pastoral como organismo foi reconhecido oficialmente pela arquidiocese há dois anos, mas a mobilização do grupo acontece há pelo menos seis, a partir da CF de 2006. "O fato de nós termos organizado um grupo de pessoas católicas do movimento de pessoas com deficiência tem como objetivo fomentar uma discussão acerca da acessibilidade e da inclusão, o que representa uma grande vitória", diz.

Nesse sentido, uma das ações mais produtivas da pastoral é o Encontro Fraternidade e Pessoas com Deficiência (Enconfrater), que dissemina informações sobre Igreja e inclusão junto a participantes de várias dioceses brasileiras. A sexta edição do evento aconteceu no dia 29 de setembro deste ano.

logomarca da Pastoral da Pessoa com Deficiência

Pastoral lança Projeto Igreja Acessível

Foi a partir das necessidades de pessoas como dona Elza que a Pastoral das Pessoas com Deficiência e a arquidiocese de São Paulo idealizaram um programa para inclusão e acolhimento, que começa a ser colocado em prática.

Lançado oficialmente no final de setembro, o Projeto Igreja Acessível (PIA) vai adaptar templos, espaços físicos e de comunicação ligados à arquidiocese às pessoas com deficiência. Os objetivos são: propiciar condições de participação nas atividades eclesiais; eliminar as barreiras físicas, de comunicação e atitudinais que impeçam ou dificultem a presença e a participação nas paróquias e comunidades; sensibilizar e envolver a comunidade da Igreja para a inclusão e participação nas atividades, bem como afirmar os valores evangélicos, que devem nortear o relacionamento entre todos.

Mesa do seminário Enconfrater

O projeto é muito amplo e, por isso, as mudanças não devem acontecer do dia para a noite. A meta inicial da pastoral é abranger 20 paróquias até 2018. Levando em consideração que São Paulo tem mais de 400 paróquias, se a meta for cumprida, Tuca acredita que será mais fácil alcançar as demais, até porque terá sido criada uma cultura de inclusão nesses locais.

Amélia Galan diz que a Pastoral vai lutar com todas as forças para que toda a programação seja cumprida. "Isso vai ser importantíssimo não só para as pessoas com deficiência, mas para a Igreja em si, que deve ser um espaço aberto para todos e todas", avalia.

Ações previstas

O PIA prevê a implantação de uma série de ações para promover a acessibilidade em vários espaços, proporcionando a inclusão de pessoas com todos os tipos de deficiência, seja física, auditiva, visual ou intelectual.

Saiba o que será feito:

– instalação de banheiros acessíveis nas paróquias;
– projetos de comunicação acessível nas missas, com braile e audiodescrição (deficientes visuais), LIBRAS (para deficientes auditivos);
– oferta, pelas editoras católicas, de publicações em formato digital acessível para pessoas com deficiência visual;
– acessibilidade para pessoas com deficiência visual em todos os sites católicos ligados à arquidiocese de São Paulo;
– fortalecimento e ampliação da catequese junto às pessoas com deficiência, com a capacitação dos catequistas para a educação religiosa inclusiva;
– criação de 10 núcleos de Emprego Apoiado para inclusão de pessoas com deficiências severas nos ambientes de trabalho da arquidiocese.

Maria Trevisoli

Outras iniciativas da pastoral

A Pastoral da Pessoa com Deficiência é considerada a pioneira no Brasil na promoção de ações que aproximem os fiéis com deficiência das atividades da Igreja e de projetos como o PIA. Porém, outras iniciativas estão tomando força pelo Brasil.

No Estado de São Paulo, estão sendo formadas outras duas pastorais, uma na diocese de Osasco, na região metropolitana, e outra em Campinas, no interior.

A cadeirante Maria Trevisoli está envolvida na criação desse grupo e está muito otimista. "Tem um ano que estamos nos voltando para conseguir essa Pastoral e acredito que vai dar certo", diz.

Maria frequenta a Paróquia Santa Teresa DÁvila e cita o local como exemplo de acessibilidade, pois disponibiliza rampas de acesso e banheiros adaptados.

A arquidiocese do Rio de Janeiro é outro exemplo e mantém a Pastoral da Pessoa com Deficiência. As primeiras atividades surgiram em 2006, com a criação do Fórum Permanente da Pessoa com Deficiência, para a discussão dos direitos dos cidadãos, das políticas públicas e como espaço de partilha de experiências.

As três entrevistadas

Maria Trevisoli (à direita) está envolvida na criação da Pastoral em Campinas (SP)

O Fórum motivou a criação da Pastoral, que foi oficializada em 2010 e passou a agregar os serviços que já eram prestados pela Pastoral dos Surdos e Catequese Especial, dentre outras atividades inclusivas.

Logomarca da TV Aparecida

TV acessível

A TV Aparecida disponibiliza 12 horas diárias de programação com legenda oculta (closed caption) e está em fase de testes para oferecer filmes com audiodescrição. Os recursos atendem a demanda das pessoas com deficiência que assistem a emissora. Para isso, a TV mantém um setor específico, que planeja ações para ampliar o alcance evangelizador da emissora. "Trabalhamos com a ideia de que temos que prover meios para que nossos programas sejam vistos, ouvidos e usufruídos pelo maior número de pessoas, respeitando suas especificidades", diz a coordenadora do setor de Acessibilidade e Multimídia da emissora, Flávia Machado.

Além de atender à legislação vigente, Flávia destaca que a proposta de criação do setor surgiu com a oportunidade de acolher melhor os telespectadores, com a disponibilização de recursos de acessibilidade comunicacional, por meio da tecnologia digital.

Setor de acessibilidade da TV Aparecida

Setor de Acessibilidade e Multimídia disponibiliza recursos de acessibilidade comunicacional

Os funcionários do setor respondem pela produção do conteúdo closed caption, audiodescrição e postagem de vídeos no canal Youtube da emissora, voltado às pessoas que querem rever a programação ou que não puderam acompanhar o conteúdo pela TV.

O closed caption está presente nos programas da emissora em duas faixas de horário, das 8 às 14 horas e das 18 à meia-noite.

Fonte: Jornal Santuário

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