Objetividade versus subjetividade: onde está a virtude?

Gigitinho, porém, o que descrevia era o que não havia. O mundo que ele minuciava eram fantasias e rendilhados. A imaginação do guia era mais profícua que papaeira. cego enchia a boca de águas.
Mia Couto
(Fragmento do conto "O cego Estrelinho")


A Companhia de Dança Aérea Nós no Ar apresentou recentemente em Porto Alegre o espetáculo Trajetórias, em temporada financiada pelo Fumproarte, que também contratou a Mil Palavras para oferecer audiodescrição numa das sessões.

Convidado para colaborar com a Letícia na elaboração do roteiro da audiodescrição, me senti na obrigação moral de aceitar o desafio. Afinal, em outra oportunidade, já tinha defendido publicamente a disponibilização deste recurso de acessibilidade em apresentações de dança.

Confesso que, ao ter que lidar com um material em permanente movimento e, ao mesmo tempo, carregado de significâncias e simbolismos nas suas mutações, percebi toda a sabedoria contida no ditado popular: na prática a teoria é outra.

Cabe ao público de pessoas com deficiência visual, que compareceu em bom número, avaliar a qualidade do resultado final. Minha intenção é apenas alinhavar algumas reflexões pessoais que esta empreitada propiciou.

A dança aérea utiliza, como suporte para suas evoluções, o aparelho circense conhecido como tecido acrobático. É fácil detectar, nesta modalidade, a confluência de três vertentes diversas: ciência, técnica e arte. A ciência comparece com o conhecimento, muitas vezes intrínseco, de alguns princípios básicos de mecânica, dinâmica, elasticidade, força, equilíbrio e anatomia. O desenvolvimento das habilidades acrobáticas dos bailarinos é, sem dúvida, uma demonstração de técnica apurada, cultivada nos treinos e na noção precisa do manejo adequado de um par de ferramentas: o tecido e o próprio corpo. São da esfera da arte, finalmente, a estética das coreografias e sua intencionalidade na transmissão de uma mensagem que, através dos sentidos, procura atingir o núcleo emocional de cada espectador.

Me ocorreu, então, que são da mesma ordem os fatores que participam do contexto geral da audiodescrição. Até o risco da queda é similar.

Podemos imaginar que a audiodescrição nasceu no longínquo dia em que, pela primeira vez, um cego arranjou um guia sensível e eficiente, que não se limitou a empurrá-lo de um lado para o outro ou a fornecer-lhe as instruções necessárias para evitar tropeços e esbarrões. Porém, é bastante recente a iniciativa consciente dos precursores no uso profissional e generalizado deste recurso.

O conhecimento produzido nestas poucas décadas de prática está sendo sistematizado e submetido ao método científico no ambiente acadêmico, e também fora dele. Numa área avessa à normatização, a ciência pode, a partir desses estudos, oferecer diretrizes e orientações, sugerir procedimentos e alertar sobre a eventual ocorrência de desvios. Já existem no Brasil, assim como também em outras latitudes, profissionais competentes dedicando seu esforço e seu tempo a esta tarefa.

A audiodescrição também é técnica no domínio que exige ferramentas como a observação, a percepção, a pesquisa e o uso apropriado da linguagem. Trata-se de habilidades que podem, mesmo em aqueles que já as possuem naturalmente, ser apuradas e desenvolvidas com o aprendizado, o treinamento e a prática. Já o papel da arte no processo de audiodescrição é bastante complexo, depende da plateia e do produto a ser descrito, além de apresentar uma série de riscos. Reconheço que, na condição de eventual escritor e leitor inveterado, sou adicto aos universos ficcionais.

Ao colaborar na elaboração do roteiro de Trajetórias quase que sucumbi, em mais de uma oportunidade, à atração de encarnar o personagem Gigitinho, do conto citado em epígrafe, e desandar a descrever as minhas fantasias. A intenção era boa: aproximar o ouvinte da experiência sensorial do público vidente a partir de ilações, referências, inferências e metáforas que eram as responsáveis pelo meu envolvimento emocional com o espetáculo.

O caminho era errado, por tentar impingir o meu imaginário a quem tem o direito de criar o seu próprio a partir das informações fornecidas na descrição. O policiamento ostensivo e atento da Letícia impediu que eu caísse em tentação. Mas fiquei ruminando, com vontade de debater este tema com quem entende mais e tem mais experiência nesse assunto.

É comum deparar-nos com a definição da audiodescrição como o ato de traduzir imagens em palavras. Aparentemente, essa definição estaria incompleta. Poetas, romancistas ou contistas também podem traduzir imagens em palavras, e costumam fazê-lo. Porém, a eles é permitido um olhar pessoal e, através da eventual qualidade da sua expressão artística, transferir esse olhar sensível e por vezes emotivo aos seus leitores.

Já do audiodescritor se exige uma utopia: o olhar universal e desprovido de qualquer subjetividade. Esse olhar universal, como qualquer utopia que se preze, é inatingível, o que não nos impede de caminhar sempre na sua direção.

Mas a questão é outra: esse olhar plenamente objetivo, se ele fosse possível, seria a fonte mais confiável de transmissão de informações visuais quando se trata de um produto artístico? Seriam essas informações suficientes para que a pessoa com deficiência visual pudesse estabelecer, com a obra artística, as mesmas relações de um vidente?

Voltemos a tratar, por um momento, da inclusão da audiodescrição no rol das traduções. Suponhamos o caso de uma obra literária que, na sua língua original, fez rir ou fez chorar (para nos ater apenas a emoções primárias), toda uma geração de leitores. Não seria um fracasso a tradução que não conseguisse obter um resultado similar em outro idioma?

A solução adotada, na elaboração do roteiro de Travessias, foi a de admitir, em doses criteriosas, o uso da comparação ou da metáfora, a sugestão de um clima irremediavelmente subjetivo, o olhar sensível que avança um passo além daquilo que é exibido. Tudo isso sem deixar de descrever, de forma objetiva, sem interpretações, imagens, gestos e movimentos responsáveis pelo que é sugerido.

Se chegamos a ultrapassar alguma das fronteiras demarcadas pela boa prática da audiodescrição estabelecida, sem termos para isso passaporte nem visto, talvez possa absolver-nos o motivo do crime. Se os olhos, como dizem, são as janelas da alma, o cego abre janelas nos ouvidos. Então, ouvir estrelas, como pregava Bilac, não há de ser desatino.

Da experiência restaram incertezas, apesar da boa receptividade do público. Mas é nos questionamentos que devemos achar o estímulo necessário para continuar tentando sempre encontrar o melhor dos caminhos.

Navegar é preciso e impreciso. Não tentar navegar é puro desperdício.

Por se tratar de um tema controverso, por termos tantas dúvidas a respeito do assunto, declaramos aberto este debate. Aceitam-se colaborações.

Jorge Rein

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