A audiodescrição, o produtor e o mercado consumidor – artigo de Marta Gil

A audiodescrição nos surpreende a cada dia: ao utilizá-la, identificamos usos e públicos inesperados. Ela faz jus ao título de "mil e uma utilidades", com licença do produto que consagrou essa expressão.

O título acima menciona o produtor e, consequentemente, também o mercado consumidor, visto que um não existe sem o outro.

O Produtor de Audiovisuais pode ter certeza que já há um segmento de mercado composto por pessoas com todos os tipos de deficiência, por pessoas acima de 65 anos (cujas necessidades são frequentemente semelhantes) e pessoas com dificuldades funcionais (como disléxicos). Trata-se de segmento numericamente significativo (45.623.910 pessoas ou 23,9% da população total [1]) e que, numa visão estritamente mercadológica, não pode ser ignorado.

Embora pouco se fale sobre as pessoas com deficiência e seu impacto sobre o mercado consumidor, ele existe e mostra uma robusta tendência ao crescimento.

Como indicadores da existência deste nicho de mercado, podemos citar:

  • 325,3 mil pessoas com deficiência estão no mercado formal de trabalho (MTE/RAIS 2011);
  • Honda: o setor de automóveis adaptados representa de 7 a 9% do seu faturamento anual;
  • Reatech 2011 – Feira Internacional de Tecnologia em Reabilitação e Acessibilidade: o setor de produtos e serviços para reabilitação movimenta aproximadamente R$ 1,5 bilhão /ano no Brasil;
  • Associação Brasileira das Indústrias e Revendedores de Produtos e Serviços para Pessoas com Deficiência (Abridef): o setor congrega cerca de sete mil empresas, entre indústrias e prestadores de serviços, em sua maioria de pequeno e médio portes e movimentou cerca de R$ 3,5 bilhões (2011); quintuplicou seu faturamento em dez anos.

O alcance da audiodescrição também mostra ampliações, em termo de público. No início, ela foi considerada como recurso da maior importância para pessoas com deficiência visual (cegas e com baixa visão) – e realmente o é, sem a menor dúvida.

Mas ela tem-se mostrado igualmente eficiente para pessoas com deficiência intelectual e, como escreveu Judith Fellowes [2], na Revista Brasileira de Tradução Visual Espectro autístico, legendas e áudio-descrição também para as pessoas identificadas com o espectro autista, pois fornece mais um canal de entrada de informações, de forma dosada e nos momentos cruciais:

A áudio-descrição foi originalmente elaborada para atender às pessoas com deficiência visual. Ela preenche o que é necessário, fornecendo informações que sejam puramente visuais em um formato de áudio e é utilizada em televisão, teatro e cinema. Então, por exemplo, se você estiver assistindo Eastenders [3], e Phil Mitchell entrasse na sala com raiva, a áudio-descrição poderia ser "Phil entra na sala com rosto zangado". Isto ajuda alguém com espectro autístico porque identifica a emoção que pode ser de difícil captura para ele, e também fornece outra pista de entrada para reforçar a informação. Se a pessoa com autismo estiver com dificuldade em identificar as diferentes pessoas da cena, a áudio-descrição nomeia a pessoa de forma que os aspectos visuais e auditivos ajudem a criar um entendimento completo.

Também é preciso lembrar que:

  • A audiodescrição se faz cada vez mais presente e necessária em todas as esferas da vida social: na escola; em eventos como casamentos, confraternizações, nascimentos;
  • A população brasileira com idade acima de 65 anos está vivendo mais e com mais qualidade de vida, sinalizando a presença de um expressivo nicho consumidor de recursos de acessibilidade (incluindo a audiodescrição);
  • A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, que tem equivalência constitucional, garante o direito à participação na vida cultural, recreação, lazer e esporte (artigo 30).

Marta Gil – consultora na área da Inclusão de Pessoas com Deficiência, socióloga, Coordenadora Executiva do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas, Fellow da Ashoka Empreendedores Sociais, colaboradora do Planeta Educação e da Revista Reação.

[1] Censo Demográfico 2010, IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

[2] Pesquisadora britânica com Mestrado em Usabilidade.

[3] Série

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