Lucas Radaelli: tive de ir a Inglaterra para assistir a um filme com audiodescrição no cinema

Lucas Radaelli tem 21 anos, é natural de Curitiba (PR). Cego desde nascença do o olho esquerdo e do direito desde os 4 anos. Estuda ciências da computação na Alemanha. Sempre preferiu mais os livros, por entendê-los melhor, mas com a descoberta da audiodescrição estes dois gostos passaram a ter a mesma relevância.

Há tempos Lucas é seguidor do nosso blog e sempre demonstrou grande interesse pela audiodescrição, mas ainda não havia tido a oportunidade de curtir um bom filme no cinema com o recurso. Matou a vontade na Inglaterra, conforme relatou em seu blog:

Django Livre, e eu também

Na semana passada fiz uma viagem com minha namorada e mais 4 amigos pela Irlanda, Escócia e Inglaterra. Embora pretenda contar em outros posts mais detalhadamente, em ordem cronológica, o que aconteceu, achei melhor escrever de uma vez sobre uma das coisas mais fantásticas que aconteceram qual eu queria escrever sobre o mais breve possível.

Ao chegarmos na Inglaterra na última quarta-feira, saímos de King’s Cross, avistamos um Burger King com as palavras "Burger of the Day" a mostra e logo pulamos lá para dentro e almoçamos. Fomos para o Hotel depois disso, apenas para deixar as malas, e partirmos para o cinema, eu e minha namorada, enquanto o resto do grupo ia assistir o jogo do Brasil.

Pffffff Lucas. Você está em Londres e a única coisa que pensa em fazer é ir no cinema?

– Isso mesmo. Por um motivo muito especial.

Chegamos no maior shopping da Europa ou qualquer coisa do tipo, Westfield. Não importava. Eu queria ir ao cinema o mais rápido possível. Compramos os tickets. Iríamos assistir "Django Livre".

Mas desta vez, havia algo diferente, havia algo especial que me fazia ficar ansioso e mais ansioso a medida que os minutos de espera para o filme passavam. Seria o primeiro filme com audiodescrição que eu assistiria no cinema.

Audiodescrição, para quem não sabe, é um recurso que permite aos cegos e pessoas com baixa visão entenderem melhor o que se passa na tela. Através de uma narração que acontece durante os momentos que não possuem fala no filme, é explicado cenas, ambientes, ações, enfim, tudo que não é possível compreender sem a visão.

No Brasil, esse tipo de coisa só engatinha. Conseguimos recentemente apenas duas horas de audiodescrição por semana nos canais de TV aberta, o que é absurdamente pouco. Nos cinemas? Nem pensar.

Mas naquela hora nada importava. Lá estava eu, pronto para assistir um filme no cinema, com a chance de entender e aproveitar a mesma coisa que todo mundo.

Ao entrar na sala, pedi pelos meus fones de ouvido, os quais eram bem confortáveis. Eu ficava com um fone de ouvido que me deixava com o canal da audiodescrição, enquanto o som do cinema transmitia os sons normais do filme.

Em cenas com apenas diálogos, deixava uma orelha no fone e outra fora, para ouvir bem as duas coisas e não perder nada. Em cenas de mais ação e barulheira, música, etc, ficava com os dois fones em um volume mais alto para ouvir a descrição em primeiro plano e me focar completamente na descrição do que estava acontecendo e deixar o resto dos sons chegar apenas como plano de fundo.

Foi sensacional.

Nem posso tentar escrever um review deste filme, porque não conseguiria ser imparcial. Eu seria completamente parcial, pela experiência que tudo isso me proporcionou; foram poucas vezes na vida, que consigo me lembrar, de algo semelhante que foi tão empolgante.

Eu vibrava na cadeira do cinema. Eu pregava minhas orelhas no fone, nos sons do cinema, não queria perder um ruído que fosse. Dei risadas e mais risadas com o Dr. Schultz que, diga-se de passagem, é um personagem sensacional e muito engraçado.

Uma característica minha: sempre que leio um livro, assisto um filme é de analisar a história, mesmo a medida que ela decorre, mas desta vez isso ficou completamente de lado. Eu vivia cada cena e somente aquela cena. Não tentava criar um prognóstico, nem mesmo verificava as motivações dos personagens, julgava o enredo ou qualquer coisa do tipo. Tudo isso ficou para depois. Só quando saí da sala do cinema que fui me lembrar que esse tipo de coisa existia.

Porque aquela hora eu queria apenas ver o filme e nada mais.

Perdi várias partes de alguns diálogos, principalmente quando os personagens negros conversavam. O sotaque puxadíssimo as vezes tornava as coisas complicadas pro meu lado, mas logo entrava a audiodescrição em jogo, explicando o que os personagens faziam, e o que não me veio de um modo, veio de outro e logo eu sabia o que se passava.

Fora minha experiência pessoal, o filme é ótimo. Do começo ao fim, se não é a ação que te puxa para a tela, são os diálogos memoráveis. Ao contrário de Inglorious Bastards, que achei certas aparições de violência desnecessárias e forçadas, neste filme a violência, que naturalmente também aparece em excesso por ser um filme do Tarantino, achei muito mais refletora da natureza humana, e de quão sórdida ela pode tornar-se.

Mais do que nunca, participarei dessa luta no Brasil. Precisamos, para já, o mesmo recurso nos nossos cinemas. Pode demorar, mas um dia há de ter audiodescrição nos cinemas brasileiros. Para mais uma vez eu me animar tanto quanto me animei na última quarta.

E como diria Dr. Schultz, eu descreveria toda essa experiência como: "Auf wiedersehen. Bullseye". (Até a próxima. Na mosca.).

Fonte: Lucas Radaelli

Mais sobre audiodescrição
Estive em uma Oficina de Audiodescrição, em Porto Alegre, que além de recarregar as energias,
Com o avanço tecnológico e a mudança de hábitos, atividades tradicionais desaparecem e cedem lugar
Um mundo sem imagem, mas não sem poesia! Estou sentado, sozinho, na sala escura. Uma


Mais sobre audiodescrição
Estive em uma Oficina de Audiodescrição, em Porto Alegre, que além de recarregar as energias,
Com o avanço tecnológico e a mudança de hábitos, atividades tradicionais desaparecem e cedem lugar
Um mundo sem imagem, mas não sem poesia! Estou sentado, sozinho, na sala escura. Uma