O audiodescritor: Quem é esse afinal?

Todos nós que temos deficiência visual estamos muito habituados à "audiodescrição cotidiana", aquela que é realizada pelas pessoas do nosso convívio ou por aqueles que ocasionalmente se deparam conosco.

Podemos mencionar alguns exemplos. Um amigo, ao regressar de uma viagem, nos mostra as fotos recém-tiradas por ele, e, entusiasmadamente, descreve para nós uma a uma. Um vendedor de determinada loja, conforme nosso pedido, descreve uma peça de roupa pela qual ficamos interessados. Um professor, durante sua aula, descreve algum diagrama posto na lousa, como um recurso pedagógico para a compreensão de um dado conceito. Um médico, antes de iniciar a consulta, descreve para nós a sala onde pretende nos atender.

Diante destas situações bem variadas, nossa experiência nos leva a perceber que há diversos estilos descritivos, os quais refletem as diferenças individuais existentes entre aqueles que descrevem. Algumas pessoas são capazes de captar e de prender nossa atenção, enquanto outras, ao descreverem algo, provocam em nós desinteresse e apatia.

Em meio a essa realidade tão conhecida, surgem os audiodescritores, profissionais tecnicamente habilitados para descreverem produções audiovisuais de modo criterioso e sistemático. A visão deles está presente no livro "Audiodescrição: transformando imagens em palavras", por meio de depoimentos. Ao ler estes relatos, me ocorreu uma pergunta: Qual seria o perfil característico daqueles que se dispõem a abraçar a audiodescrição? Quem é este profissional?

Em primeiro lugar, penso que o audiodescritor deva ser alguém que tenha pleno domínio da linguagem. Este domínio não se restringe apenas ao conhecimento da norma gramatical culta, mas se refere sobretudo à adequação do vocabulário a cada contexto específico. O audiodescritor deve ter uma versatilidade lingüística que lhe permita narrar, diferentemente, uma comédia, um drama, ou uma animação infantil. A ele, nunca podem faltar palavras. Ele necessita gostar de falar, na mesma medida em que as pessoas devam gostar de ouvi-lo. Seu tom de voz precisa ser expressivo e agradável, de modo a colorir o conteúdo poético de sua descrição. De fato, sua narrativa necessita ser objetiva e poética ao mesmo tempo, o que evidencia o caráter artístico desta atividade.

Em segundo lugar, o audiodescritor precisa ser alguém sinceramente inconformado com o fato de que os cegos estejam relativamente privados do acesso a certos bens culturais. Este inconformismo é, aliás, o ingrediente essencial que o leva a agir em prol desta causa. Ser um audiodescritor implica então em um compromisso ético, ligado à responsabilidade e à cidadania. Ele precisa estar convicto de que o cego tem direito a um acesso pleno, e não a um acesso parcial.

Por Fabiana Bonilha

Fabiana Bonilha, Doutora em Música pela UNICAMP, psicóloga, é cega congênita, e escreve semanalmente no E-Braille.

E-mail: Fabiana.ebraille@gmail.com

Fonte: Diário Braille

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