Acessibilidade no SESC Paladium

Na última sexta feira, fui ao teatro com minhas irmãs e minha prima assistir à peça "Tio Vânia (aos que vierem depois de nós)" do Grupo Galpão. Era a oportunidade que faltava para conhecer um novo espaço multifuncional na capital mineira: o SESC Palladium. O espaço reúne o Grande Teatro, galeria de arte, teatro de bolso (sala para 80 espectadores), cinema, café, restaurante, estacionamento, oficinas, etc.

O Palladium fica localizado no centro da cidade, no local onde funcionou o famoso Cine Palladium – que era considerada a mais luxuosa sala de cinema de Belo Horizonte. Para evitarmos confusões e fugirmos da garoa, optamos pelo estacionamento. Paguei R$ 20,00 que valeram e muito a pena. Logo que entramos no estacionamento, o manobrista nos orientou que parássemos próximo ao elevador. Em seguida, um segurança nos acompanhou e deu as orientações sobre o andar onde desceríamos. Assim que o elevador chegou ao andar do Grande Teatro, outro segurança veio nos acompanhar. Existem escadas rolantes, mas, sinceramente, ainda não tenho uma grande afinidade com elas. Mil vezes utilizar os elevadores.

O lugar é lindo! Adorei as esculturas próximas à rampa. As cabeças são muito legais. Que me desculpe o autor das esculturas, mas míope que sou não consegui enxergar seu nome e nem o da obra. Nada que São Google não resolva! Trata-se da obra "As sete cabeças" de Ronaldo Mafra.

Mesmo chegando uns 50 minutos antes do início da peça, a fila já estava grande. Perguntamos a um funcionário (uma simpatia, diga-se de passagem) se havia espaço para cadeirantes. Ele nos orientou que ficássemos no início da fila e disse que, lá dentro, havia espaço reservado. Um dos momentos que sempre acho tenso é quando furo a fila. Mesmo sabendo da existência da Lei, muita gente acaba torcendo o nariz. Ri demais quando cheguei na frente da fila e uma senhora foi logo me dizendo: "Eu cheguei primeiro! Também sou prioridade". Nem se estivesse mal de TPM e brigada com o mundo, começaria uma discussão sobre qual a ordem de prioridade no atendimento preferencial. Em supermercados, já me cansei de ouvir que posso esperar porque estou sentada.

Há tempos, temos a Campanha de Popularização do Teatro no início do ano em BH. Nessa época, os ingressos não são numerados. Ou seja, o último a chegar é a mulher do padre. Já passei aperto, em anos anteriores, quando fui assistir ao Galpão no Palácio das Artes. Parecia camelô correndo do rapa. Dessa vez, não tive esse problema. A peça estava bem vazia e todos puderam escolher seus lugares com tranquilidade.

Assim que entrei no teatro, um funcionário me mostrou o lugar reservado para cadeirantes. Adivinhem? O local fica na terceira plateia. O próprio funcionário me disse que a casa não estava cheia e que, se achasse melhor, poderia me sentar onde escolhesse. Também disse aos seguranças para me oferecer ajuda. Acabamos ficando próximas ao palco na 9ª fileira. Minha irmã foi logo se adiantando e me carregou. Nem deu para aceitar a ajuda dos seguranças. Eles deixaram minha cadeira de rodas na lateral do teatro e me disseram que poderia chamá-los a qualquer momento. Gostei demais do atendimento!

Até hoje não me conformei com essa história do cercadinho dos cadeirantes nem sempre ficar em local de boa visibilidade. Aqui em BH, o teatro que mais gosto é o da Alterosa. Como a entrada possui escadas, o cadeirante entra por uma rampa lateral e fica na primeira fila. As outras possuem degraus! Acho que deveríamos ter direito a um local reservado em todas as plateias dos teatros. Até hoje morro de inveja quando minha irmã comenta que o Zé Mayer é mesmo lindo. No ano passado, assistimos ao Violinista no Telhado no Teatro Alfa/SP. O local reservado para cadeirantes fica no fundo do teatro. Para se chegar às fileiras, existem degraus. Nesse dia, quase morri congelada. Sinceramente, não me sinto muito confortável sozinha em um cercadinho no escuro.

No Sesc Palladium, temos rampas por todo o teatro. Não vi degraus. As poltronas são uma delícia. Fiquei encantada com o espaço! Iluminação, som, acessibilidade… tudo moderno. Só dispensava o gelo do ar condicionado. Estou começando a acreditar que peças contextualizadas na Rússia já vem com o frio para aumentar a experiência sensorial.

Adorei o Sesc Palladium. Como bem me lembrou um amigo, que eu saiba, ainda não temos peças com audiodescrição em BH. Só em alguma data comemorativa. Para cadeirantes, o local é muito bom.

Em relação à peça, sou suspeita, pois gosto muito do Grupo Galpão. Achei sem noção demais o fato de algumas pessoas gargalharem em cenas pra lá de dramáticas. Tio Vânia é uma obra do escritor russo Anton Tchekhov que retrata a perda inevitável das ilusões e a consequente necessidade humana de se reinventar e encarar seu destino. A peça nos leva à reflexão. Não tive como não identificar parentes com os personagens. Ficou familiar demais para o meu gosto. Saudades do meu Titon. Qualquer semelhança com Tio Vânia não é mera coincidência. Acho triste demais quando uma pessoa perde seu brilho no olhar, deixa de sonhar, não encontra mais forças para interferir na realidade que a cerca… Deixa de viver. Apenas sobrevive. Que graça tem nossa existência se não tivermos paixões, sonhos e esperança? É claro que, muitas vezes, a vida não nos dá escolha. É preciso aceitar os fatos. Mas sempre lembro que existe uma grande diferença entre aceitar e se acomodar. Uma das coisas que mais me excitam nessa vida é sair da minha zona de conforto. Sem o medo, nossa coragem fica inerte. Encarar o desconhecido, ousar, reinventar, recomeçar… Até mesmo voltar pra casa com um gostinho de decepção tem seu aprendizado. Como diria o grande Renato Russo, porque esperar se podemos começar tudo de novo?

Adriana Lage

Fonte: Rede SACI

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