Deficiência não é um detalhe, diz Cláudia Werneck

Antes de o espetáculo se iniciar, uma audiodescritora passeava pelo palco com a professora Nara Ferreira, que tem baixa visão. A profissional descrevia o cenário e as duas juntas tocavam os objetos que estavam ali. Foi assim, com uma visita guiada, que começaram os preparativos para a peça teatral "Um Amigo Diferente?", dirigida por Marcos Nauer. A apresentação, em cartaz em Belo Horizonte, neste sábado (13), narra a história de um garoto de 10 anos que descobre que a diferença entre as pessoas pode ser uma grande aventura.

Um Amigo Diferente inicia turné em BH

"Um Amigo Diferente?" narra a história de um garoto de 10 anos. (Foto: Pedro Cunha/G1)

A educadora que teve a experiência de sentir o palco, antes mesmo de os atores entrarem em cena, contou que a visita guiada foi “fundamental”. "O meu mundo de acesso ao teatro é muito restrito. Achei maravilhoso conhecer, porque quando ela narrar, eu vou estar a par de tudo que está acontecendo", disse Nara, já sentada na plateia, junto de dezenas de crianças que aguardavam a apresentação começar.

Nara Ferreira fazendo visita guiada ao palco, antes do início da peça

Nara fazendo uma visita guiada, antes do espetáculo iniciar. (Foto: Pedro Cunha/G1)

De acordo com a idealizadora do projeto, a jornalista e escritora carioca Claudia Werneck, o espetáculo foi o primeiro a contar com total acessibilidade na comunicação no Brasil. A peça, baseada em um livro homônimo, publicado por Claudia em 1995, tem também a presença de intérpretes de Linguagem Brasileira de Sinais (Libras), legenda eletrônica para surdos, programas em braile para cegos, além da reserva de assentos para pessoas com dificuldade de locomoção e cadeirantes. A apresentação conta, ainda, com a audiodescrição, em que um profissional especializado narra os figurinos dos atores e a disposição do cenário, por exemplo. Para ter acesso ao recurso, a plateia utiliza fones de ouvido.

A vontade de criar um ambiente cultural inclusivo, conta Claudia Werneck, surgiu em 1992, quando ela fez uma reportagem sobre síndrome de down. "Mudou minha vida", disse. Claudia deixou a redação como local de trabalho e resolveu apostar no ofício de escritora. Desde então foram 14 livros publicados e várias premiações.

Claudia Werneck a idealizadora do projeto

Claudia Werneck, a idealizadora do espetáculo "Um Amigo Diferente?". (Foto: Pedro Cunha/G1)

Em 2002, a escritora criou a “Escola de Gente”, uma Organização Não Governamental (ONG) que trabalha para a disseminação de políticas públicas inclusivas. O grupo surgiu um ano depois, quando a filha de Claudia, a atriz Tatá Werneck, reuniu seus colegas de faculdade, com o objetivo de utilizar o teatro a favor da comunicação. Já em 2003, a companhia teatral se apresentou em um espetáculo que se preocupava com a acessibilidade. "A gente queria provar que é possível fazer alguma coisa linda, sofisticada e totalmente acessível", disse Claudia Werneck.

Crianças esperam o início da peça

Ser diferente – Cláudia Werneck, escritora

Segundo Claudia, "ser diferente é a “maior aventura do mundo". Ela diz ainda que a diferença não está em uma pessoa e sim no mundo. "Nunca nasceu, nem nascerá ninguém igual a ninguém. Todo mundo é diferente. Então, esse livro e o espetáculo têm o objetivo principal de dizer que as diferenças estão em todos os lugares", reforçou a idealizadora.

"O problema do Brasil, hoje, é achar que você tem direito de dizer quando as pessoas com deficiência vão ser celebradas, ou quando elas vão ter acesso à direitos"

Na opinião de Claudia Werneck, a sociedade não é construída para todas as pessoas. Ela explica que as políticas de inclusão no país possuem falhas. "O problema do Brasil, hoje, é achar que você tem direito de dizer quando as pessoas com deficiência vão ser celebradas, ou quando elas vão ter acesso à direitos. Ninguém tem o direito de dizer quando que as pessoas com deficiência vão ao teatro. O planeta é delas, a sociedade é delas. Elas não são um detalhe".

Segundo a escritora, descobrir a infinidade de diferenças que existe entre as pessoas é um dos primeiros passos para criar um país mais inclusivo. Após a apresentação na capital mineira, a peça segue para Juiz de Fora, Brasília, Santos e São Paulo.

Pedro CunhaDo G1 MG

Fonte: Portal G1-MG

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