História acessível

Na entrada, o desenho em baixo relevo do percurso a ser realizado; ao lado da maquete, réplicas manipuláveis do prédio mostrado; nas paredes, letras de metal em três dimensões. Esses e outros recursos fazem parte do sistema de acessibilidade do Memorial da Assembleia Legislativa Deputado Pontes Neto (Malce), inaugurado no último dia 15. Sua instalação, passo considerável rumo à democratização do acesso à cultura na cidade, situa o Malce em lugar de destaque dentre outros equipamentos do tipo no País.

O Memorial abriga exposição permanente sobre a trajetória sociopolítica do Brasil a partir da chegada da corte portuguesa ao País, em 1808 – com ênfase no Ceará e na trajetória do Poder Legislativo do Estado, desde a criação dos Conselhos Provinciais, em 1835, até a atualidade. Os núcleos, dedicados a diferentes momentos e personagens da história, contam com recursos de imagens, sons e audiovisuais – entre objetos, reproduções, gravações, texto, projeções, cenários e maquetes.

Algumas dessas montagens são acompanhadas de recursos extras ou adaptadas para que deficientes sensoriais (cegos e surdos) também possam apreender o conteúdo. É o caso, por exemplo, das letras em metal em três dimensões na parede, que podem ser tocadas. "Alguns conseguem até ler as letras adesivadas, porque elas têm um breve alto-relevo", explica a mediadora Margareth Bezerra.

Outra maneira de acompanhar os textos da exposição é por meio das apostilas em Braille disponibilizadas em alguns núcleos. No caso das imagens, algumas podem ser descritas pelo mediador e outras são esculpidas em madeira para toque ou manuseio – avulsas ou presas à parede.

O mediador também tem papel fundamental no caso dos chamados surdos sinalizados (não oralizados), ou seja, que não têm o português como língua base, e, sim, a Língua Brasileira de Sinais (Libras).

Algumas imagens, como rostos e objetos, são esculpidas em madeira para toque ou manuseio dos visitantes. Amanda Tojal, especialista em acessibilidade em espaços culturais, proferiu palestra na inauguração do novo sistema do Malce.

O Malce ainda não dispõe de mediadores que dominem a Libras, mas a capacitação nesse sentido é uma das metas da coordenação do equipamento. "Ao contrário do que muita gente pensa, o caso dos surdos (sinalizados) é mais complexo", garante a museóloga Amanda Tojal, consultora especialista em acessibilidade em espaços culturais. "A Libras é uma língua mais restrita que o português, seu vocabulário é limitado. Não há flexão verbal, por exemplo", explica Tojal. "Assim, se o texto exposto é complexo, o surdo não vai entender. Precisa haver a mediação de um intérprete", complementa a museóloga, que foi convidada a proferir palestra na inauguração do sistema de acessibilidade do Malce.

Na ocasião, também foi lançado o terceiro caderno da série "Tramas da Memória", com o tema Acessibilidade e Linguagens, com um artigo de Tojal, entre outros especialistas e pesquisadores. A coleção é realizada pela Assembleia Legislativa do Ceará.

Outra opção oferecida pelo Malce no lugar do mediador, tanto para cegos quanto surdos é um conjunto de seis tablets formatados para realizar a áudio-descrição e a tradução para libras do conteúdo da exposição. Os equipamentos são disponibilizados para visitas de grupos. Mas, segundo Teresa Diógenes, coordenadora de educação e mediação do Malce, os aparelhos funcionaram muito melhor para os surdos. "Os visitantes cegos, especialmente aqueles cujo grau de deficiência não é 100%, ficaram impacientes porque, segundo eles, a áudio-descrição é muito detalhada e repetitiva. Eles preferem ser guiados pela fala do mediador", explica.

Os tablets são acionados por sensores – ou seja, funcionam apenas dentro do espaço do memorial. A cada núcleo da exposição, sensores detectam o aparelho e mudam automaticamente a áudio-descrição ou vídeos com intérpretes de Libras. Durante um teste para a matéria, porém, essa mudança não ocorreu no mesmo compasso do percurso – às vezes se passava de um núcleo a outro e o áudio ou o vídeo (ou os dois) permaneciam mostrando o conteúdo anterior. É preciso passar próximo de cada sensor para que ele detecte o aparelho.

Além disso, nem todos os elementos presentes na exposição dispõem de recursos de acessibilidade, a exemplo da gravação de uma encenação de discurso feito no parlamento em 1867, em defesa da equiparação salarial de professores e professoras, que pode ser ouvida por um gancho de telefone. O material não é disponibilizado em texto escrito.

Esses e outros problemas vão sendo registrados pela equipe do Malce, que já planeja adaptações. "Esse feedback que recebemos deles é importante. Por exemplo, durante visita de um grupo de portadores de deficiência visual, um deles, ao tocar em um brasão na parede, disse "falta só a cor". Isso nos fez perceber que a exposição precisa contemplar os diferentes graus da deficiência", avalia Margarete. Como, porém, trata-se de equipamento público e, portanto, qualquer mudança depende de processo licitatório, o tempo para implantá-las é maior. Ainda assim, segundo Diógenes, a receptividade do público tem sido boa. "Tanto que, para visitas, estamos com agenda cheia até agosto".

Apesar da necessidade de ajustes, para Tojal, o sistema de acessibilidade do Malce torna o equipamento referência no País. "Foi uma grande surpresa, é um trabalho excelente. Eles estão bem preparados para receber deficientes sensoriais", elogia. Segundo a museóloga – que já foi coordenadora do Programa Museu e Público Especial do Museu de Arte Contemporânea da USP, e do Programa Educativo para Públicos Especiais da Pinacoteca do Estado – um sistema de acessibilidade em espaço cultural precisa contemplar três pontos básicos. O primeiro é a chamada acessibilidade atitudinal, "ou seja, formar pessoas para receber esse público. O segundo ponto é a acessibilidade física, quer dizer, dotar o espaço com rampas, elevadores, portas largas, piso tátil, avisos luminosos e sonoros, entre outras especificações. Por fim, há a acessibilidade comunicacional, que contempla a elaboração de conteúdos adaptados para esses públicos.

Para Tojal, programas permanentes de acessibilidade em espaços culturais – não apenas em museus, mas em teatros, cinemas e outros tipos de equipamentos – ainda são pouco comuns no Brasil, assim como a formação de profissionais para esse setor. "É um novo tipo de especialização, que ainda está começando no Ensino Superior", reconhece.

Mais informações:

Memorial da Assembleia Legislativa Deputado Pontes Neto (acesso pela Rua Barbosa de Freitas, no Edifício Senador César Cals, Dionísio Torres). Visitação de segunda a sexta, das 8h às 12h30 e das 14h às 17h. Contato e agendamento de visitas: (85) 3277.3727.

ADRIANA MARTINS

REPÓRTER

Fonte: Diário do Nordeste



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