A fotografia como fator de inclusão da pessoa com deficiência visual

A ausência da visão não anula a função que as imagens exercem na vida da pessoa com deficiência visual. Exemplo disso são as obras com audiodescrição, recurso de acessibilidade que vem ganhando espaço e popularidade para esse público.

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PraCegoVer: fotografia de paisagem de bananeiras em primeiro plano; ao fundo aparecem montanhas e o céu azul.

Apesar de não contemplar cores, figuras e fotografia da mesma forma que uma pessoa que enxerga o faz, não posso negar a existência das imagens e a influência que elas exercem na minha vida, já que, enxergando ou não, estamos rodeados desses signos visuais.

Desde muito cedo aprendi apreciar as paisagens e a beleza das imagens através dos olhos de alguém que, cuidadosamente, descrevia as características daquilo que a minha visão não consegue captar, de maneira informal. Hoje, a imparcialidade, objetividade e clareza ao organizar as informações mais relevantes a serem narradas fez com que a audiodescrição se tornasse um recurso de acessibilidade reconhecida formalmente e o objeto de estudo de muitas pesquisas acadêmicas.

Assim como os olhos do audiodescritor, as câmeras fotográficas exercem a função de materializar uma imagem ou um momento que um cego não conseguiria registrar sozinho em sua memória. Foi assim que passei a me interessar por fotografia e, consequentemente, por audiodescrição.

Cada cena registrada tem seu colorido próprio, seu aroma, sua textura e seu significado, construídos através dos esquemas imagéticos que formamos em nossa mente ao ouvir as descrições ou ao vivenciar os momentos. Com um clique podemos transportar essas sensações pra onde desejarmos; pra perto ou pra longe, pra dentro da nossa memória e pra onde nossa imaginação nos levar.

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PraCegoVer: fotograria – a esquerda uma árvore comprida uma cerca e uma casa em primeiro plano ; ao fundo as montanhas.

Seria contraditório um cego utilizar uma forma extremamente visual para registrar os momentos mais importantes por não poder contemplar o resultado final de uma fotografia?

Talvez a contradição não esteja na imagem em si, mas na ideia internalizada por muitas pessoas de que um cego só pode ver aquilo que ele consegue tocar ou sentir. Temos que a sensação nos diz apenas que o mundo existe, enquanto que a percepção refere-se a interpretação dessas sensações quando levadas para o cérebro.

Então, nós podemos "enxergar" uma fotografia quando quaisquer dos nossos sentidos forem estimulados e identificar todas as características dessa produção fotográfica, seja pela descrição de seus elementos, por ter vivenciado aquele momento, por ter guardado na memória as experiências sensoriais e perceptivas ou pelo prazer em participar do convívio com outras pessoas sem que criemos um mundo paralelo, isolado dessas imagens, cores e fotografias. Afinal, a fotografia é captada para que alguém possa apreciá-la e, nesse sentido, podemos dizer que a fotografia como fator de inclusão da pessoa com deficiência visual contribui para a inclusão desse segmento da população.

Fotos tiradas pela Luciane Molina.

Luciane Molina é pessoa com deficiência visual e pedagoga. Possui especialização em atendimento Educacional Especializado e atua com consultoria e cursos de formação de professores em Grafia Braille. Mantém o blog "braillu".

Fonte: Guia Inclusivo

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