Cine Click testou a tecnologia que permite cegos assistirem a filmes

Um espectador incauto que entrasse na noite desta quinta-feira (15) no Palácio dos Festivais talvez estranhasse a cena. Agrupados numa ala da sala de exibição, um grupo de cegos aguardava ansiosamente o início da sessão do filme A Oeste do Fim do Mundo, integrante da mostra competitiva estrangeira do Festival de Gramado.

Como todos os presentes, conversavam animadamente e acompanhavam os discursos de apresentação dos realizadores. Talvez passassem despercebidos não fossem os óculos escuros e os fones de ouvido, equipamento fundamental da audiodescrição, tecnologia que permite a deficientes visuais "assistir" a filmes.

Solicitei o apetrecho de acessibilidade para avaliar seu funcionamento e fiquei surpreso com a eficiência. Descobri que o filme é pré-roteirizado antes da exibição, com uma descrição precisa e detalhada de ambientes e reações dos personagens. A narração parte de uma cabine no fundo da sala, onde dois locutores, um homem e uma mulher – para evitar confusão entre as vozes -, se revezam. Ela detalha os ambientes. Ele cuida dos diálogos.

Assisti aos primeiros 20 minutos do filme acompanhando a narrativa e com os olhos na tela para ver se era funcional. Cada minúcia do cenário foi descrita em pormenores pela narradora Marcia Caspary. Os diálogos em espanhol eram traduzidos pelo ator e locutor Fernando Waschburger, que fazia as vezes de um dublador experimentado, passando aos ouvintes a impostação de voz de acordo com as emoções vividas pelos personagens.

Em seguida, fiz o teste derradeiro. Fechei meus olhos por 15 minutos e "assisti" ao longa apenas utilizando o recurso. Mantive-me preso à trama como antes – naturalmente sentindo o desconforto de um neófito que ouve um filme em vez de vê-lo -, sem perder nada do enredo, sem me desconectar do longa, sentindo o desenvolvimento de seu arco dramático como se tivesse vendo.

Do meio em diante, a sedução de enchergar falou mais alto. Abri os olhos e acompanhei o filme como todos aqueles que têm o privilégio da visão. Ao subir dos créditos, estes também narrados, corri para o saguão do Palácio dos Festivais e fui avaliar as impressões de quem realmente depende da tecnologia.

Conversei com o simpático casal de professores Leopoldo e Isa Baldi, que vieram de Porto Alegre para a sessão. Ele, que debateu animadamente o filme comigo, resume a importância da audiodescrição em filmes: "Há bem pouco tempo eu era altamente frustrado quando se falava em cinema. O que eu vou fazer no cinema?, dizia a meus amigos. Eu sou cego. Estou recuperando algo que não vivi. Quando era adolescente, meus amigos iam ao cinema e, às vezes, para não perder a companhia, ia junto mesmo sem entender nada. Agora me sinto um cidadão completo, afinal, estou conversando sobre esse filme com você, que vê, de igual para igual".

O 41º Festival de Gramado segue até o próximo sábado (17), quando serão conhecidos os vencedores desta edição.

Saiba mais sobre a audiodescrição deste filme:

Fonte: Cine Click – 16/08/2013

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