Ouvidos para enxergar

"O que faz com que homens sejam homens é a imaginação". A afirmação do iluminista francês Denis Diderot, autor de Carta Sobre os Cegos, escrita no século 18, serve tal fio condutor às reflexões sobre a estética do olhar, a comunicação e a inclusão, desde lá. Não à toa, foi o pensador, primeiro a ponderar acerca da importância de se descrever/traduzir obras de arte e espetáculos, sobretudo a quem não pode ver com os olhos, que a filósofa Isabel Machado (Bell Machado) se reportou ao introduzir, de maneira pioneira no Brasil, a audiodescrição, em 2000 – isso depois de aprender com deficientes visuais do Centro Cultural Louis Braille de Campinas a ressignificar o mundo "visível" de forma tangível; e passar a narrar filmes ao vivo (foram mais de 300 sessões narradas até aqui), desempenhando um trabalho que poderia ser definido como ouvir para enxergar.

Ouvir para Enxergar: Deficiente visual aprecia com as mãos as plantas do Jardim Sensorial, montado na Ceasa Campinas, em abril

A especialista é, hoje, além de audiodescritora em diversos eventos culturais – incluindo espetáculos de dança, música e exposições – assessora da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida (SMPD) e responsável pelo curso de audiodescrição da Escola de Governo e Desenvolvimento do Servidor (EGDS).

A iniciativa inédita da Secretaria Municipal de Recursos Humanos e da SMPD, fruto de uma primeira experiência com o público em geral, desenvolvida no primeiro semestre deste ano no Laboratório de Acessibilidade (LAB), por meio do Sistema de Bibliotecas da Unicamp (SBU), tem transformado o cotidiano de 26 servidores públicos de diversas áreas que, desde agosto, integram a primeira turma do curso de capacitação. As aulas têm duração total de 40 horas. A procura foi tanta que já há lista de espera para a segunda classe, programada para ter início no ano que vem.

Ouvir para Enxergar: Emmanuelle Alckmin, secretária municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida

Emmanuelle Alckmin, secretária municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida: "Nunca tive a opção de enxergar. Essa sempre foi a minha realidade e eu tive de me adaptar a ela".

"Ao se deparar com uma realidade que não é a sua, leva-se essa experiência vida afora. O curso permite a pessoas com deficiência visual e intelectual ver e compreender o conteúdo que lhes é apresentado, por meio da audiodescrição, ampliando sua percepção do mundo exterior e das próprias emoções", sintetiza a secretária municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida, Emmanuelle Alkmin.

Cega desde os seis meses de idade em decorrência de um tipo raro de câncer (retinoblastoma bilateral), formada em direito e com duas especializações em andamento, a secretária pontua, aos 33 anos: "Nunca tive a opção de enxergar. Essa sempre foi a minha realidade e eu tive de me adaptar a ela. Por isso friso que a audiodescrição vai muito além da possibilidade de ver um filme de uma forma acessível". E Bell complementa: "Não existe inclusão social sem o desenvolvimento da autonomia intelectual da pessoa com deficiência visual. Isso só ocorre quando se propicia o acesso à informação e se tem a liberdade de se relacionar com o mundo em sua plenitude".

Ouvir para Enxergar: Bell Machado: pioneira em audiodescrição no Brasil

Bell Machado, filósofa e pioneira em audiodescrição no Brasil: "Não existe inclusão social sem o desenvolvimento da autonomia intelectual da pessoa com deficiência visual"

Ouvir para Enxergar: O que os olhos não veem

Para ilustrar o que isso significa, Emmanuelle, cinéfila e tanto, cita a cena épica de Perfume de Mulher (filme de Martin Brest, lançado em 1992) em que o tenente-coronel Frank Slade (interpretado por Al Pacino), cego, rodopia no salão com a parceira de dança ao som de Por Una Cabeza, de Carlos Gardel. "Sem a descrição dessa cena, que é belíssima, quem não enxerga só ouve o tango", destaca. "Gosto muito das expressões finais de Al Pacino em Advogado do Diabo" (de Taylor Hackford, 1997). E aí pinça da seleção de filmes prediletos Matrix (de Larry Wachowski, 1999), destacando a cena em que Neo, interpretado por Keanu Reeves, contém as balas com as mãos.

Na opinião de Emmanuelle, filmes como Ensaio Sobre a Cegueira, adaptação do diretor Fernando Meirelles para o romance homônimo do escritor português José Saramago, ainda que belíssimo e obrigatório de ser assistido, termina por reforçar certos estigmas. "Saramago trouxe a cegueira como algo conceitual e terminou por potencializar a cegueira do ponto de vista do vidente. À Primeira Vista (de Irwin Winkler, 1999), embora bem hollywoodiano, é mais próximo da nossa realidade. Se, porventura, um dia, eu voltasse a enxergar, creio que a reação seria bastante semelhante à que o personagem de Val Kilmer, que é cego, tem no longa-metragem".

Ouvir para Enxergar: Flávia Ballo, do Museu da Imagem e do Som de Campinas

Flávia Ballo, do Museu da Imagem e do Som de Campinas: "De repente, nos vimos enxergando o mundo de outra maneira. Aprendemos muito mais com eles do que eles conosco"

Ouvir para Enxergar: O treino do olhar

Isabel explica que o desafio proposto aos alunos do curso de capacitação em audiodescrição da EGDS é esse: transformar imagens em palavras. Simples? Nem tanto. É preciso treinar o olhar (e dar limite à subjetividade) antes de descrever qualquer cena/diálogo sobre a parte invisível. Por isso, na ementa do curso, ela, que também é mestranda em Multimeios (na área de cinema) pelo Instituto de Artes da Unicamp, incluiu tópicos de semiótica e introdução ao pensamento de filósofos como o próprio Diderot, Voltaire e Platão. Desse último, grego, é a frase-pensata: "Um olho que queira ver-se tem que ter olho para o outro", citada num dos artigos da audiodescritora e que integra Audiodescrição – Transformando Imagens em Palavras, coletânea de textos de vários autores publicada em 2010 pela Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Estado de São Paulo e cuja versão digital pode ser acessada no link http://goo.gl/Cfl6bq. "No processo de leitura, cria-se imagens a partir de palavras. Na audiodescrição, esse processo é inverso, uma vez que a imagem precisa ser traduzida em palavras para que possa ser ressignificada e compreendida pelo indivíduo”. Por isso, para que se possa descrever um filme, é preciso assisti-lo ao menos duas vezes antes de elaborar o roteiro audiodescritivo – "Há, sim, um método que vem sendo esquadrinhado seriamente no grupo de discussão das normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), Grupo AD-ABNT, cujo objetivo é estabelecer as diretrizes para a produção de audiodescrição no Brasil", ressalta Bell.

Ouvir para Enxergar: Grafite sensorial criado nos muros da Casa Verde

Grafite sensorial criado nos muros da Casa Verde: texturas diferentes

Ouvir para Enxergar: O que precisa ser dito

Na audiodescrição, explica Bell, ocorre a descrição oral do conteúdo visual respeitando-se sempre a intenção do autor/diretor da obra e os tantos silêncios que também comunicam – isso se a passagem não trouxer informações imprescindíveis à compreensão da história (caso da cena do tango em Perfume de Mulher).

O espectador usa fones de ouvido para ouvir a narração, feita ao vivo, na maioria dos casos. Em maio, por exemplo, Bell audiodescreveu o espetáculo teatral Circo de Pulgas, apresentado pelo Grupo Acrobático Fratelli, na Praça Correia de Lemos, durante a programação da Virada Cultural de Campinas.

"Na linguagem cinematográfica, os movimentos de câmera representam muito. Ao dizer que o personagem correu em direção ao mar preciso situar o espectador sobre a perspectiva da câmera. Normalmente, nós, videntes, não pensamos sobre isso. Não é o que aparece no quadro o que mais importa para a formação do repertório imagético, mas a intenção do autor na construção daquela cena, que deve ser contada de forma detalhada e objetiva", esclarece. Elimina-se, assim, barreiras para que, quem apresenta alguma deficiência intelectual ou não vê com olhos "enxergue" (imagine) cores, formas, gestos, cenários, vestimentas e expressões dos personagens.

A audiodescritora elenca, ainda, Vida Maria, premiado curta-metragem de animação gráfica em 3D, de Márcio Ramos, que acompanha "Maria José, desde os cinco anos de idade, na labuta diária no pilão, no envelhecer calado que transforma seu corpo", no Nordeste brasileiro, entre as centenas de filmes que descreveu como bom exemplo ao vidente que queira experimentar a nova realidade. Acesse: http://goo.gl/Wjl0gd.

Vale lembrar que, desde 1º de julho de 2010, graças à Portaria nº 188/2010, do Ministério das Comunicações, as emissoras de TV com sinal digital aberto passaram a ser obrigadas a exibir, no mínimo, duas horas semanais de conteúdo audiodescrito.

Ouvir para Enxergar: Apresentação do espetáculo Circo das Pulgas

Apresentação do espetáculo Circo das Pulgas, na Virada Cultural, que teve audiodescrição de Bell Machado: deficientes visuais acompanham narração ao vivo por meio de fones de ouvido

Ouvir para Enxergar: Experimentando um novo foco

Coloque-se na mesma situação pela qual passaram os alunos do curso de audiodescrição da Prefeitura: uma réplica tridimensional do emblemático Edifício Copan esculpida em gesso e semelhante à obra da artista plástica Simone Kestelman lhe é entregue. Vidente, sua primeira reação será associar a miniatura à cidade de São Paulo e ao autor do projeto arquitetônico, Oscar Niemeyer. De que ângulo você vê o objeto? De frente, de cima, pelas laterais? Que forma lhe parece mais clara? A entrega aos exercícios, pouco a pouco, lega aos estudantes novos pontos de vista.

Algumas aulas bastaram para que as funcionárias do Museu da Imagem e do Som de Campinas Flávia Ballo (que atua na área de música) e Juliana Siqueira (na audiovisual) se inspirassem, modificassem os próprios contextos e se motivassem a propor uma nova realidade aos frequentadores do espaço cultural em que atuam. "Apresentamos um projeto de acessibilidade para o MIS, em parceria com o Centro Cultural Braille, com o objetivo de que pessoas com deficiência visual e cognitiva realmente tenham acesso e conheçam os acervos do museu", adianta Juliana. "De repente, nos vimos enxergando o mundo de outra maneira. Aprendemos muito mais com eles do que eles conosco", situa Flávia.

Ouvir para Enxergar: Deficientes tateiam parte do Jardim Sensorial

Deficientes tateiam parte do Jardim Sensorial, espaço criado na Ceasa Campinas, na comemoração dos 38 anos do entreposto, em abril

Ouvir para Enxergar: A obra, ressignificada

A fotógrafa e grafiteira Fernanda Sunega não havia se dado conta de quão acessíveis são os trabalhos que produz até se deparar com um grupo de crianças, parte delas deficiente visual ou com mobilidade reduzida, tateando o Jardim Sensorial da Ceasa Campinas, espaço para vivenciar a natureza e os sentidos projetado em comemoração aos 38 anos do entreposto, em abril deste ano.

"Enquanto fotografava, me dei conta de que fazia arte para pessoas. Mas não sabia exatamente como fazer artes visuais de maneira inclusiva", situa ela, que sempre explorou as temáticas da mulher e do feminismo em seus desenhos. "Sempre pensei na questão da reflexão e nunca assinei obra alguma, imaginando que as pessoas reconheceriam meus traços".

No final do mês passado, decidida a tornar seus grafites, de fato, acessíveis, ela e as grafiteiras Danielle Pellizzer e Vanusa Passos desenvolveram o projeto Grafite Sensorial, nos muros da Casa Verde (casa de passagem de crianças e adolescentes), ao lado do Mercado Municipal de Campinas (Rua Marechal Deodoro, 766, Botafogo). A história retratada pelas artistas tem ao lado a descrição em braille e pode ser tateada. "Usar spray e tinta látex nós sabíamos. Ao introduzir texturas, refinamos a técnica e revisitamos a maneira de nos expressarmos. Cada uma de nós escolheu um material. Resolvi trabalhar com tecido, feltro curtido e espuma, uma variação de texturas fofas. A Danielle levou muita pastilha de azulejo, material que brilha à noite. A Vanusa escolheu trabalhar com barbante. As pessoas param para apreciar o trabalho e refletir sobre o que é não ter um dos sentidos".

A proposta deu tão certo que a ideia é que outros grafites sensoriais surjam pela cidade. "Teremos de escolher muros lisos. Costumamos pintar em muro chapiscado, de bloquinhos de tijolo, que já têm suas texturas. É mesmo uma outra realidade".

Fonte: RAC

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