Dialogando com outros olhares

Recentemente, foi publicada e divulgada uma obra de grande importância para as pessoas com deficiência visual: o livro "Audiodescrição: Transformando imagens em palavras", organizado por Lívia Maria Villela de Mello Motta e Paulo Romeu Filho.

Ao ler este livro, procurei ficar em uma posição ativa, tentando extrair dele conceitos e proposições que enriquecessem meus conhecimentos anteriores. Não me refiro, neste caso, apenas ao campo intelectual, mas sobretudo, ao conjunto de conhecimentos vividos, aqueles que de fato são significativos em minha trajetória. Como uma leitora ativa, e não passiva, dei especial atenção à segunda parte do livro, intitulada "A primeira audiodescrição a gente nunca esquece", que traz depoimentos de pessoas com deficiência visual. Tendo contato com esta parte da obra, busquei reunir alguns elementos que há em comum entre os vários relatos, e procurei entrelaçá-los às minhas próprias vivências enquanto alguém que também não enxerga com os olhos.

Vou então me dedicar a explorar estes pontos de confluência entre estes vários olhares, ou seja, entre a visão dos autores dos textos e a minha visão sobre o assunto em pauta.

Abordarei aqui particularmente dois aspectos. Em primeiro lugar, considero que a experiência cultural das pessoas cegas antescede o processo de implantação da audiodescrição. Muito antes desta iniciativa, fomos acostumados a assistir a filmes e a peças teatrais "do nosso jeito", "à nossa maneira", isto é, contando com nosso referencial perceptivo. Como fruto destas nossas experiências enquanto espectadores, trazemos conosco uma rica e preciosa bagagem. Sempre que assistimos a uma produção artística sem audiodescrição, realizamos um árduo trabalho mental de apreensão desse conteúdo, utilizando-nos das trilhas sonoras destas produções, bem como usufruindo das narrativas informais e por vezes incompletas, feitas por nossos amigos ou familiares. Este trabalho, que realizamos desde a infância, contribuiu para que aprimorássemos nossa audição, e para que desenvolvêssemos muitas habilidades cognitivas fundamentais, como: raciocínio dedutivo, atenção concentrada, memória e imaginação. Por isso, este processo não pode ser menosprezado, já que faz parte da nossa história de acesso à cultura. Cada um, valendo-se da sua subjetividade, desenvolveu meios e recursos para entender o conteúdo das produções audiovisuais a que já assistiu, mesmo sem enxergar.

Entretanto, devemos destacar, como um segundo aspecto desta reflexão, que, ao assistirmos a um filme ou a uma peça teatral sem o recurso da audiodescrição, estamos excluídos de uma grande parcela do conteúdo destas produções. É inegável que, por não enxergarmos, perdemos o acesso a tudo o que seja estritamente visual. Mas é preciso realçar a essência desta exclusão, o seu ponto crucial, aquele que de fato nos toca. Sentimos realmente "na pele" a marca da exclusão, quando perdemos o acesso às emoções comunicadas dentro de uma narrativa audiovisual a que assistimos.

Tente se transportar para uma situação concreta. , imagine uma platéia assistindo atentamente a uma peça teatral, e você, que tem deficiência visual, em meio a este público, nesta mesma atitude atenta. De repente, alguma coisa acontece no palco e todos da platéia riem, ou exclamam, ou comentam algo em voz baixa, como em um burburinho. Todos , menos você. Naquele momento, todos da platéia estão na mesma sintonia afetiva, menos você! Alguém a seu lado percebe então que você não manifestou o mesmo sentimento coletivo e lhe conta o que aconteceu. Você se surpreende e se diverte, mas não tem mais ânimo para rir nem para exclamar, porque você percebe que chegou atrasado. O "timing" já foi, e você "perdeu o bonde". . Sua percepção vai além. Você percebe que aquele grupo de profissionais que produziu a peça se esmerou muito para comunicar a todo o público, de forma precisa, a emoção inerente àquela cena. Sim, mas eles trabalharam por todos os espectadores, menos por você. AO criarem uma cena com um recurso visual tão refinado, eles pensaram em todos, menos em você. Não há nada pessoal neste caso. Você é simplesmente um representante do grupo formado por todas as pessoas cegas que poderiam estar ali assistindo àquele espetáculo. De fato, mais do que a não-apreensão do conteúdo da trama, é esta exclusão de ordem afetiva, que realmente nos constrange e entristece.

Portanto, o advento da audiodescrição vem sobretudo nos inserir ao campo emocional subjacente às narrativas audiovisuais. O maior prazer ao assistirmos a uma produção audiodescrita é o de podermos "sentir junto", e de podermos entrar no mesmo território afetivo implícito a cada história.

Outros textos de Fabiana:

Fabiana Bonilha, Doutora em Música pela UNICAMP, psicóloga, é cega congênita, e escreve semanalmente no E-Braille.

E-mail: Fabiana.ebraille@gmail.com
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Fonte: RAC

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