Empresas investem em tecnologia para criar acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência ao universo das artes

Um povo sem cultura não consegue se desenvolver e exercer seu papel de cidadão, criar recursos para lutar por uma sociedade mais justa e igualitária. E um dos segmentos mais alijados do processo cultural brasileiro é o das pessoas com deficiência, que não recebem as mínimas condições de acessibilidade para desfrutar dos prazeres do cinema, da música, de um simples programa de TV, por exemplo. No entanto, há grupos que utilizam tecnologias de ponta para fazer com que essas manifestações cheguem tanto a quem quer consumir cultura quanto a quem deseja produzi-la.

A Iguale Comunicação de Acessibilidade é uma dessas empresas que foram criadas, exclusivamente, para pensar e desenvolver soluções assistivas completas em comunicação para pessoas com algum tipo de deficiência. Foi fundada em 2008, em São Paulo, pelo publicitário, professor universitário e empresário Mauricio Santana. Ele explica que a Iguale foi concebida para oferecer serviços e soluções que vão além dos disponíveis nos estúdios e produtoras tradicionais de áudio e vídeo ou em agências de comunicação e internet.

"Sua missão é se especializar, de forma contínua, nas técnicas que permitam a promoção da acessibilidade, para que as pessoas garantam, com autonomia, o direito à informação, à cultura e ao lazer. Comunicação de acessibilidade consiste em criar, utilizar ou adaptar os meios tecnológicos e assistivos disponíveis para garantir o acesso ao conteúdo exibido pelos meios de comunicação e de cultura, nas suas mais diferentes manifestações, às pessoas com algum tipo de deficiência", revela Santana.

Para colocar em prática a comunicação de acessibilidade, a empresa se especializou em audiodescrição, legendas Closed Caption e Open Caption, Libras e em acessibilidade web. A Iguale também participou do processo pela regulamentação da profissão de audiodescritor, oficializado no início de 2013, quando o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) incluiu a nomenclatura na CBO (Classificação Brasileira de Ocupações).

No cinema e no teatro, a AD é realizada ao vivo e a narração é feita de dentro de uma cabine montada com uma visão estratégica para a tela grande ou o palco

Em relação às novidades do setor, ele conta que a área de acessibilidade e da tecnologia assistiva tem se desenvolvido nos últimos anos. "Em 2011, a audiodescrição (AD) teve sua estreia na televisão brasileira. Trata-se de um recurso que tem como base uma narração em áudio, descrevendo o conteúdo visual de programas de TV, filmes, peças teatrais, internet e outros produtos audiovisuais, para que a pessoa com deficiência visual possa ter pleno entendimento e autonomia. A AD já é adotada, também, em outras áreas, como educação, exposições, audioguias, audiolivros, eventos, palestras e em quaisquer atividades similares. A grande aliada para o desenvolvimento da AD é a facilidade de adaptação e de incorporação em várias áreas da comunicação, informação e cultura".

Santana ressalta que a Iguale, atualmente, estuda e experimenta alguns projetos que oferecem o serviço de audiodescrição associado à experiência tátil. "Hoje, em parceria com uma empresa de serigrafia especializada em impressão Braille e acessibilidade, estamos pesquisando e testando a receptividade e o entendimento da imagem, associado à audiodescrição, com imagens disponibilizadas com aplicação de texturas e relevos diferenciados, facilitando para a pessoa com deficiência visual, também, o entendimento dimensional dos elementos visuais de uma fotografia, por exemplo".

Para a TV, segundo o diretor da Iguale, a audiodescrição é oferecida, somente, para o sinal HD nos canais abertos. Para cinema digital, no exterior, já existem possibilidades de audiodescrição e legendagem para surdos inseridas no filme distribuído para as salas de exibição. Para a internet, recentemente, o Blog da Audiodescrição divulgou o YouDescribe, uma ferramenta para a gravação de descrições para vídeos do YouTube. "Não podemos considerar uma ferramenta profissional, mas o fato de sua criação, em minha opinião, é um indicador muito positivo de que a audiodescrição está crescendo e se popularizando em todo o mundo", avalia.

Comunicação de acessibilidade consiste em criar, utilizar ou adaptar os meios tecnológicos e assistivos disponíveis para garantir o acesso ao conteúdo cultural

No cinema e no teatro, a AD é realizada ao vivo, junto à exibição, e disponibilizada ao público por meio de equipamentos eletrônicos, comuns na tradução simultânea (receptores com fone de ouvido). A narração é realizada de dentro de uma cabine montada com uma visão estratégica para a tela grande ou o palco.

Maurício Santana.

Mauricio Santana: "A grande aliada para o desenvolvimento da AD é a facilidade de adaptação e de incorporação em várias áreas da comunicação, informação e cultura"

"Recentemente, desenvolvemos um player MP3, com conteúdo audiodescrito, para a adaptação personalizada na exposição Sentir pra ver, da Arteinclusão, a pedido da curadora Amanda Tojal. É uma solução pensada e programada para ser acessível à pessoa com deficiência. Tem apenas um botão de comando para as diferentes funcionalidades e com possibilidade de atualização de conteúdo por meio de cartão de memória", explica.

Santana participou, recentemente, do 5º Encontro Internacional de Tecnologia e Inovação para Pessoas com Deficiência, em São Paulo. "Foram três apresentações e a discussão maior foi sobre a audiodescrição na TV. Um dos problemas centrais abordados foi que, apesar da AD e do Closed Captionterem sua disponibilização regulamentada por lei, os usuários e assinantes de TV têm problemas para acessar os recursos. Muitos não têm o sinal repassado para as residências".

Para corroborar a necessidade de que este e outros problemas do tipo sejam solucionados, é sempre bom lembrar do artigo 17 da Lei 10.098, que ficou conhecida como Lei da Acessibilidade:

"O Poder Público promoverá a eliminação de barreiras na comunicação e estabelecerá mecanismos e alternativas técnicas que tornem acessíveis os sistemas de comunicação e sinalização às pessoas portadoras de deficiência sensorial e com dificuldade de comunicação, para garantir-lhes o direito de acesso à informação, à comunicação, ao trabalho, à educação, ao transporte, à cultura, ao esporte e ao lazer".

Intercâmbio

Musicais Diferenças, projeto da ONG Mais Diferenças (MD), que, desde 2009, atua em assessoria, formação e acessibilidade na música, ganhou aliados importantes: o apoio da tecnologia e de uma parceria que cruzou o oceano.

Em 2012, o músico inglês Ben Glass se encontrou com o coordenador da MD, Luís Mauch, que estava em Londres por ocasião das Paralimpíadas. Glass, que é professor da organização britânica Drake Music, especializada em técnicas inovadoras de ensino e prática musicais, buscava contatos com organizações de outros países para trocar experiências na área de música e acessibilidade. A parceria começava.

"No início deste ano, a Drake e a MD estabeleceram um intenso intercâmbio, via e-mail e Skype. Desse encontro, alguns músicos ingleses, com deficiência, munidos de tecnologia assistiva, compuseram uma peça instrumental. Aqui, o rapper e ativista Billy Saga – cadeirante, consultor da MD e presidente do Movimento SuperAção – adicionou letra e instrumentação à ideia. Tudo isso foi compartilhado via audioconferência, na internet, em uma jam session ao vivo. O projeto foi batizado de The Brazilian Connection", revela Mauch.

Projetos de acessibilidade na música

Os projetos de acessibilidade na música, desenvolvidos pela Mais Diferenças, permitem que todos possam vivenciar a experiência de tocar instrumentos

Ambas entidades, então, passaram a estruturar projetos para difusão de conhecimento sobre soluções criativas, que permitem a inclusão na música, desde adaptações simples para instrumentos tradicionais até aplicativos gratuitos para smartphones. Inclusive, trouxeram para o Brasil equipamentos com tecnologia assistiva de ponta, como o Skoog, da Drake.

Skoog é um cubo de borracha, ligado ao computador, que emite sons mediante o movimento de cabeça e até mesmo pequenos espasmos

A propósito, o Skoog é um cubo de borracha, ligado ao computador, que emite sons mediante o movimento de cabeça e até mesmo pequenos espasmos. "É indicado para pessoas com deficiência, até mesmo paralisia cerebral. Com este instrumento conseguimos que todos tenham a sensação, de fato, do que é fazer música, pois não há necessidade de destreza motora no ato da expressão musical. É possível tirar sons iguais aos de muitos instrumentos, por meio de uma plataforma simples de tocar. Por isso, é adequado a qualquer idade e a diferentes tipos de limitação sensorial, motora ou cognitiva", avalia Mauch.

Luiz Coradazzi

Luiz Coradazzi: "Acho que a mudança de percepção se dá quando o olho nem percebe a cadeira de rodas no palco"

O Skoog esteve disponível para experimentação no estande da Mais Diferenças, na Reatech deste ano. "Lá, montamos um grande show com Glass, Saga e músicos convidados, em interação com videoclipes de alunos da Drake. O Glass trouxe instrumentos e aplicativos da Inglaterra. Foi um sucesso. Passaram pelo estande cerca de 1.800 visitantes. Outra atração foi a percussionista surda inglesa, Evelyn Glennie, que toca com a Björk, e é considerada uma das melhores do mundo. Ela gravou um vídeo, que foi apresentado na feira", conta.

Cinema

A Mais Diferenças também está trazendo para o Brasil o Whats Cine, um aplicativo que transforma qualquer sala de cinema em acessível. A tecnologia é da Universidade Carlos III, de Madri. "Trata-se de uma ferramenta interativa, um sistema integrado, baseado em Blue-ray, DVD, ou projetada, diretamente, a partir do computador, por meio de audiodescrição, Libras e legenda. E não interfere no áudio do restante do público", explica o coordenador da ONG.

Acesso vai além da instalação de rampas

A produção artística de pessoas com deficiência e a acessibilidade a eventos culturais foram temas do seminário Arte sem limites: trabalhando com públicos e artistas com deficiência, realizado em São Paulo. Em relação ao tema Políticas de acesso, Luiz Coradazzi, diretor de artes do British Council, um dos organizadores do evento, explica: "Garantir o acesso cultural vai muito além de instalar rampas na porta do teatro ou do museu. A legislação brasileira exige o mínimo dos espaços culturais para o acesso físico das pessoas com deficiência, mas não se posiciona quanto aos canais adaptados para a fruição e absorção do conteúdo artístico, como audiodescrição, peças táteis, braille e Libras". Sem mencionar, segundo Coradazzi, a falta de oportunidades de desenvolvimento e formação de artistas com deficiência. Há poucos cursos de Arte preparados para receber alunos com deficiência. "Além disso, ao mesmo tempo em que vemos melhorias de acesso físico em teatros, cinemas e museus, o mesmo não acontece nos bastidores: esses espaços, muitas vezes, não conseguem receber um artista cadeirante ou cego e, portanto, as oportunidades de se mostrar trabalhos artísticos também acessíveis são menores".

Para o diretor de artes, há muito sendo realizado. "São produções que têm a deficiência como tema central, ou são protagonizadas por pessoas com deficiência. O nível de qualidade artística varia muito, é claro, assim como também acontece com a produção cultural por não deficientes. "Acho que a diferença principal é que, no Brasil, os artistas com deficiência são notados por realizarem seus trabalhos, -apesar – de suas deficiências. Há um certo olhar paternalista do público e, também, das agências de fomento e dos espaços culturais. Existe uma condescendência, que foca a atenção nas limitações e, não na qualidade do produto artístico final. É muito comum ouvir comentários como -nossa, que lindo exemplo de superação-, mas, dificilmente, a análise e as críticas acontecem com os mesmos critérios que se usam para a produção artística profissional como um todo. Acho que a mudança de percepção se dá quando o olho nem percebe a cadeira de rodas no palco, mas fica emocionado com a beleza e a precisão do movimento".

Em relação às atividades do British Council, Coradazzi revela que, desde 2012, a entidade vem implementando o Transform, programa único de relações culturais entre o Brasil e o Reino Unido, que abrange ações de longo prazo nas áreas de economia criativa, relações institucionais, democratização e acesso cultural a comunidades e grupos marginalizados e, também, apoio a artistas emergentes. O último pilar do programa são as ações que visam transformar as percepções e atitudes em relação à deficiência.

Além do British Council, o seminário contou com a organização do Museu de Arte Moderna (MAM), SESC, Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e SP Escola de Teatro.

"A pessoa com deficiência auditiva, por exemplo, observa a língua gestual por meio de óculos especiais ou segue as legendas em seu smartphone", conta. "O cinema só precisa ter um roteador e o software. A pessoa baixa o aplicativo e recebe grátis o conteúdo. No Brasil, só 13% da população vai ao cinema. E, com baixíssimo investimento da sala, o empresário vai poder dar acesso a pessoas com deficiência visual, auditivo e até intelectual, deixando 100% das sessões acessíveis. Sua receita vai subir três a quatro vezes, em relação ao investimento, além de ser bom para a cultura como um todo", completa.

Dificuldades

Adriane Macarini Ferreira atua há 19 anos junto à comunidade surda, desenvolvendo a atividade de intérprete de Libras. Ela sente no seu dia a dia as grandes dificuldades para que este segmento da população tenha acesso ao cinema e à TV, por exemplo. "O principal obstáculo dos surdos está na comunicação visual. Não há intérprete de Libras ou Closed Caption na maioria dos programas, fato que priva os surdos da realidade que acontece lá fora".

Luis Mauch

O coordenador da MD, Luís Mauch, foi buscar na Inglaterra o aliado para continuar divulgando cultura para todos, incluindo as pessoas com deficiência

Ela argumenta que não é suficiente para o surdo acompanhar a conversação por meio da leitura labial, pois há muitas cenas em que os personagens são mostrados de costas ou de lado. "Além disso, existem sons emitidos nos cenários, como pneus cantando, portas batendo, passos leves etc., que precisam ser interpretados, tanto pela legenda quando pelo intérprete de Libras".

Entidades como a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (FENEIS) e a Associação dos Deficientes Auditivos-Visuais e Deficientes Auditivos (Adavida) defendem uma campanha para que os filmes nacionais também sejam legendados. Contudo, de acordo com Adriane, é preciso mais. "Esses órgãos deveriam levar o assunto mais a sério, procurando o Ministério Público para que os locais que não atendam ao decreto 5.296, que defende a acessibilidade dos surdos, sejam acionados na Justiça".

Outra dificuldade apontada por ela é em relação à capacitação dos intérpretes de Libras. "É preciso que existam faculdades, que ofereçam essa formação acadêmica. Infelizmente, a realidade brasileira está um pouco longe disso. Apenas em alguns institutos há pós-graduação. Contudo, a duração do curso é curta e, por isso, não consegue tornar o aluno um futuro intérprete. Afinal, o estudo de uma língua exige anos para se chegar à fluência".

Adriane desenvolve um trabalho com Cezar Pedrosa, casado e pai de três filhas. Todos são surdos. Ele fala sobre as dificuldades encontradas pelas meninas quando o assunto é acessibilidade cultural. "As crianças sofrem, porque tiveram nas Libras sua primeira língua. Somente a partir dos três anos é que passaram a aprender o Português. E isso leva tempo para elas assimilarem. Então, enquanto isso acontece, elas vão perdendo a oportunidade de acompanhar informações veiculadas na TV, como nos desenhos animados e programas educativos". Pedrosa acha que todas as crianças surdas deveriam ter acesso ao intérprete de Libras. "Nos cinemas não se encontra nenhum desenho animado com legendas. Elas precisam adivinhar o que está ocorrendo".

Fonte: Revista Sentidos – Edição 78 – 2013

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