Cinema é direito de todos

Há cerca de 10 anos, Ronaldo Alex marcou com uma amiga de ir ao cinema ver "O Irmão Urso". Um evento simples, mas que marcou sua vida. "Ele não tinha sentido. Eu sei que ele não fez por maldade, provavelmente foi mais curiosidade, mas me causou um impacto", conta ele sobre a abordagem de um estranho à porta do cinema. Segundo o Censo de 2010 do IBGE, dos mais de 45,6 milhões de pessoas que declararam ter pelo menos uma deficiência – o que representa 23,9% da população do país – 35,7 milhões não enxergam ou têm dificuldade para enxergar. E por que não enxergam será que não teriam direito a assistir os filmes que tantos outros ficam ansiosos para ver, como "Velozes e Furiosos", "Tropa de Elite", além de clássicos como "O Poderoso Chefão"? Uma solução encontrada para essa lacuna foi a audiodescrição. Através dela, não apenas as falas são captadas pelos espectadores com deficiência visual, mas uma descrição também das imagens. Já imaginou se a primeira vez que você tivesse assistido ‘O Náufrago’, você estivesse de olhos fechados? Ele com certeza não pareceria um filme tão bom assim ou simplesmente você não entenderia nada. "Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras, pois bem, a audiodescrição é muito mais que as tais mil palavras", disse Marco Antonio de Queiroz, cego, autor do site Bengalalegal, sobre sua participação no Festival de Cinema ‘Assim Vivemos’, de 2007. Ele, assim como outros, tem lutado para que a prática seja disseminada no Brasil de forma mais expressiva, possibilitando uma verdadeira democracia de acesso à cultura. Aqui em Belém, este mês, o documentário "Lua Nova do Penar" foi exibido no Cine Olympia, durante o evento em alusão aos 50 anos do Golpe Militar, utilizando-se desta ferramenta. Foi uma sessão com sala cheia, em sua maioria, com deficientes visuais. "Muito emocionante, porque foi uma forma de incluí-los nos eventos dessa natureza, que acontecem em todo o Brasil nestes meses de março e abril", comenta a documentarista Leila Jinkings, realizadora do filme, em parceria com Sidnei Pires. Após a exibição, uma surpreendente conversa que extrapolou o filme e foi a um debate sobre liberdade e democracia, exatamente como aconteceu em outros locais, mas ainda assim com uma força multiplicada diante da composição do grupo que ali debatia. "Muito sensibilizada pela emoção deles em terem sido lembrados, incluídos nesses eventos", traduz Leila. Segundo a documentarista, sua vontade de incluir a audiodescrição para cegos e a legenda para surdos em seus trabalhos começou a partir da experiência que teve em um festival de cinema no Sul do Brasil. "Assisti a chegada de um grupo de cegos para assistir a um filme e percebi a alegria deles em ter uma guia descrevendo as imagens. Daí que resolvi nunca esquecer disso em meus filmes", conta. Ronaldo Alex, que é professor na Escola José Álvares de Azevedo, mesmo após o impacto de ser questionado sobre sua presença em um cinema, não abandonou o gosto pelo audiovisual. Ele possui apenas 5% da visão e conta com a ajuda de amigos e da família. "Gosto de teatro, não costumo ir, mas gosto. O problema muitas vezes é que não tem companhia e com a deficiência a companhia é necessária", explica. Já o cinema, é mais frequente: "Vou com minha filha, que descreve pra mim as imagens, algumas situações". A experiência de tentar assistir ao filme sozinho, Ronaldo afirma: "Se você quer entender pelo que passo, simplesmente pegue um filme que nunca viu, sente diante dele e feche os olhos. A palavra é essa: é angustiante, a sensação de ter que perguntar pra alguém o que está acontecendo", diz. Uma alternativa encontrada por ele para ter independência, ao menos em alguns momentos, foi o acervo de audiovisual das bibliotecas. "Nelas você consegue encontrar filmes com audiodescrição". Ele conta que ali já assistiu aos nacionais "A mulher invisível" e "Tropa de Elite", mas que bom seria tê-los disponível assim, nas telas do cinema. Fonte: Diário do Pará

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