Experimentando o Whatscine

Aproveitando o feriadão, fui conhecer o aplicativo para smartphones, que permite a cegos e surdos desfrutarem de cinemas em igualdade de condições com as demais pessoas. Resultado de uma parceria entre o Espaço Itaú, a ONG Mais Diferenças e a Vitrine Filmes, pude assistir "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" com audiodescrição, assim como surdos podem escolher entre acompanhar o filme com legendas em português ou traduzido para a língua de sinais. Esta maravilha está disponível em uma das nove salas do Espaço Itaú de Cinema, que fica localizado na rua Frei Caneca, bairro de Higienópolis, em São Paulo.

Sobre o Shopping:

Fui sozinho. Entrei no shopping e tive de esperar alguns minutos até que alguém viesse perguntar se eu precisava de ajuda. Pedi para que essa pessoa me levasse até algum segurança do shopping. Ela me conduziu até um funcionário que estava na porta: passei bem ao lado dele quando entrei… Este funcionário solicitou a ajuda de outro pelo rádio, que me levou até a bilheteria do cinema demonstrando estar bem treinado na condução de cegos.

Para sair, tive de me virar sozinho e pedir orientação para visitantes do shopping porque não havia nenhum funcionário à vista. Ainda bem que o elevador tem indicações em áudio e braile e o Shopping Frei Caneca é pequeno em comparação a outros da cidade.

A falta de linhas-guia e o treinamento da atitude que os funcionários devem ter em relação à pessoas com deficiência deixaram a acessibilidade um pouco aquém do que já vi em outros shoppings.

Sobre o Espaço Itaú:

Paguei meia entrada não porque tenho deficiência, mas porque o cinema oferece desconto para clientes que paguem com cartão de crédito ou débito do Banco Itaú.

Assim que peguei o bilhete, uma outra funcionária do cinema já estava a meu lado e se ofereceu para me conduzir até a última fileira da sala: este espaço está reservado para usuários do Whatscine em todas as sessões de "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho". No caminho até lá, a funcionária perguntou se eu já tinha baixado o aplicativo, se havia trazido meu fone de ouvido, se eu já conhecia o Whatscine, e aqui vale uma dica: a Mais Diferenças e o Espaço Itaú se preocuparam em ter dez tablets a disposição para emprestar aos espectadores que não tiverem o seu próprio dispositivo móvel.

A funcionária ficou sentada ao meu lado até ouvirmos a primeira fala da audiodescrição, pronta para me orientar no uso do aplicativo, caso necessário. Antes de sair, me disse que um funcionário viria me buscar ao término do filme.

Dito e feito, quando a narração audiodescritiva começou a ler os créditos do filme, fechei o aplicativo e me levantei: nesse momento o funcionário gritou lá de baixo: espera aí que já vou te buscar. O cuidado e presteza dele me impressionaram bem, mas, por outro lado, causaram algum constrangimento pois a sala ainda estava cheia. Compreendi a preocupação dele pois teríamos de descer uma bela escadaria sem corrimão. Se possível, a substituição daqueles degraus por rampas tornaria o cinema mais acessível para todos os espectadores, e aquele funcionário não precisaria ficar tão preocupado…

Sobre o Whatscine:

Baixei e instalei o aplicativo ainda em casa: para isso, basta procura-lo na Apple Store ou na Google Play, buscando por “whatscine”. Recomendo que façam isso para que não tenham de baixá-lo no cinema, com conexão 3G.

Usar o Whatscine é bastante simples:

1. Antes de abrir o aplicativo, recomendo conectar-se a rede wifi do cinema: no caso do Espaço Itaú a rede chama-se “whatscine”. Agora explico porque a última fila foi reservada para usuários do Whatscine: para que fiquem mais perto do roteador, melhorando a qualidade do sinal;

2. Agora conecte o fone de ouvido antes de abrir o aplicativo: ele automaticamente alterna para o modo viva-voz;

3. Feito isso, abra o aplicativo e confirme que deve usar a rede “whatscine – tentei me conectar a esta rede pelo próprio aplicativo e não consegui;

4. Em seguida o aplicativo te pedirá para escolher o cinema: no caso, escolha audiodescrição. Fiquei imaginando o dia em que o Espaço Itaú oferecer acessibilidade em todas as nove salas: quando isso acontecer, seria melhor que a pergunta fosse "Escolha o filme";

5. Na próxima tela o Whatscine te pedirá para selecionar o tipo de recurso de acessibilidade: audiodescrição, legendas ou Libras;

6. Pronto, agora é só esperar pelo início do filme.

Me impressionou bastante o baixo consumo de bateria do aplicativo: foram apenas 15% para quase duas horas de uso em transmissão de áudio por streaming.

A meu ver, alguns detalhes que poderiam ser melhorados nas próximas versões do aplicativo:

a) Ssensibilidade aos toques na tela do dispositivo móvel. Todos os toques precisaram ser repetidos porque não funcionaram de primeira.

b) Senti falta de um botão para controle de volume da audiodescrição: mesmo com o volume do smartphone no máximo e apesar do filme não ter grandes variações no volume do áudio, não consegui entender o que dizia o narrador nos momentos em que a plateia ria.

No dia seguinte, quando liguei o smartphone, recebi o alerta de que tinha uma mensagem do Whatscine. Ao abrí-la, a mensagem dizia: Precisamos de sua ajuda. Abri o Whatscine e a primeira tela me pediu para responder se havia assistido ao filme. Respondi que “sim”, claro.

Não consegui explorar outro recurso que parece estar presente no aplicativo: a possibilidade de sincronizar os recursos de acessibilidade a partir da trilha sonora do filme, o que dispensaria a necessidade de conexão à rede wifi do cinema.

Sobre a audiodescrição:

· A sincronização entre a narração audiodescritiva e as falas do filme foi perfeita.

· Gostei bastante da locução: narrador com ótima dicção, interpretação na medida, timbre de voz discreto.

· O roteiro me pareceu ter descrito todos os elementos mais importantes para a compreensão do filme, apesar de alguns intervalos que poderiam ter sido aproveitados. Mas essa é uma questão discutível, pois há quem prefira descrições mais detalhadas e outros menos.

Sobre o filme:

"Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" é a versão longa-metragem do curta "Hoje Eu Não Quero Voltar Sozinho", que fez bastante sucesso. A história gira em torno das experiências de trêz adolescentes de ensino médio, na família e na escola. Merece destaque pelo fato de um deles ser cego e gay.

Conclusão:

Parabenizo o Espaço Itaú, a Mais Diferenças e a Vitrine Filmes por essa iniciativa. Cheguei em casa radiante em ver como a tecnologia pode nos favorecer e mais feliz ainda com a informação dos funcionários do cinema de que, até aquele momento, tiveram pessoas cegas presentes em praticamente todas as sessões, a maioria comparecendo espontaneamente.

Como um entre muitos batalhadores pela audiodescrição no Brasil, não existem palavras para traduzir a emoção de ver o quanto evoluímos em menos de dez anos. Pensava que batalhávamos por um recurso que seria desfrutado por nossos filhos, talvez netos. É muito bom ver que, apesar de ainda pouco presente na televisão, cinemas e teatros, a audiodescrição já se consolidou como recurso de acessibilidade e a tecnologia certamente vai facilitar sua difusão para que todos possam tirar proveito do recurso.

E para concluir, recomendo que assista esta matéria do Jornal da Band sobre o lançamento do Whatscine no Espaço Itaú de Cinema.

Por Paulo Romeu

Fonte: Blog da Audiodescrição

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