Aula inaugural da Pós-graduação em Audiodescrição na UFJF

Na quinta-feira, 20/03/2014, A Universidade Federal de Juiz de Fora deu início ao primeiro curso de especialização em Audiodescrição do Brasil, em parceria com a Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência. A oferta de especialização nessa área reafirma o compromisso da UFJF com uma sociedade inclusiva, ao capacitar profissionais para promover a acessibilidade de pessoas com deficiência, visto que o profissional poderá atuar nos mais diversos contextos e ambientes culturais, educacionais e corporativos. A seguir, assista recortes da aula inaugural do curso e a homenagem que prestamos a dois grandes batalhadores pela audiodescrição no Brasil.

Aula inaugural

A aula inaugural do primeiro Curso de Especialização em Audiodescrição do país aconteceu na noite dessa quinta-feira (20), no auditório do ICB, da Universidade Federal de Juíz de Fora (UFJF). A aula inaugural foi ministrada pelo secretário nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Antonio José Ferreira, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR). "Estamos fazendo a história das pessoas com deficiência no Brasil. Aqui temos as primeiras 50 pessoas que serão especializadas em audiodescrição", afirmou.

A primeira turma é composta por alunos de todo país, selecionados a partir da atuação profissional ou pelo trabalho realizado nas entidades voltadas para atenção às necessidades das pessoas com deficiência. O curso semipresencial tem carga horária de 405 horas e foi elaborado de acordo com a política nacional sobre acessibilidade da pessoa com deficiência. Os novos especialistas, presentes na aula inaugural atuarão nos mais diversos contextos e ambientes culturais, educacionais e corporativos.

O curso é realizado em parceria pela SDH/PR e UFJF sob a coordenação da Profª. Drª. Eliana Lúcia Ferreira e da Drª. Lívia Maria Villela de Mello Motta, a iniciativa aposta no efeito multiplicador da capacitação. "Esses 50 alunos que vem de diversas regiões brasileiras vão ter a partir de agora a obrigação de estar implementando a audiodescrição nos seus estados, de promover a expansão e o uso do recurso de audiodescritivos, bem como testar, verificar condições de acessibilidade, os recursos disponíveis nos ambientes para que o conhecimento que eles estão tendo acesso nesse curso possa também servir como base da expansão da acessibilidade nas suas regiões", afirmou a Profª. Drª. Lívia Motta.

Participantes compõem grupo heterogêneo

Vindas de Goiânia direto para o curso, duas professoras que trabalham com pessoas com deficiência visual falaram das suas expectativas de acordo com suas respectivas áreas. A professora Adriana Alves trabalha no apoio pedagógico em Língua Portuguesa e no setor de produção do Centro Brasileiro de Reabilitação e Apoio do Deficiente Visual (CEBRAV). Ela disse que a partir do curso poderá qualificar o atendimento das demandas de audiodescrição recebidas na entidade onde trabalha. "A audiodescrição é uma coisa nova e nossa própria entidade por ser um centro especializado na área de deficiência visual recebe muita demanda para realizar a audiodescrição nos eventos, mas não temos ninguém. Estávamos até agora fazendo laboratório e atuando nessa prática de forma ainda intuitiva", considerou.

Também do CEBRAV, a professora de dança, Laís Borges, espera do curso o entendimento de como a audiodescrição é aplicada no mundo da arte. "Sobretudo para as artes visuais, é fundamental que as pessoas com deficiência visual, que vão a um espetáculo ou museu, tenham o recurso da audiodescrição disponível, mas a arte é muito subjetiva, poética, tem linhas de pensamento e acredito que o curso será muito importante pra embasar isso também".

Além do crescimento profissional, a vivência de um conteúdo técnico elaborado para observar a necessidade do outro também traz um ganho pessoal. Essa é a opinião da jornalista Talita Escobar, que trabalha com a produção dos recursos de close-caption (legendas ocultas) e audiodescrição na TV Aparecida, em Aparecida, São Paulo.

"A gente procura descrever tudo o que a pessoa com deficiência visual não poderia entender. Pode ser um jeito de olhar do personagem, uma piada visual e ainda objetos e cores, pois muitas pessoas adquiriram a cegueira no decorrer da vida, então trabalhamos com essa memória, comentou Talita, detalhando o trabalho de referência da emissora iniciado em 2012 com a introdução de close-caption e audiodescrição de missas, filmes e séries presentes na sua programação. "Isso ajuda muito a gente, hoje percebo detalhes em filmes que antes nem prestava atenção", comentou.

Cobertura da aula inaugural pela TV UFJF

Ficha técnica do vídeo:

Produtor: Juliana Araújo
Repórter: Caio Zóia
Cinegrafistas: Luiz Filipe Bastos e Daniel Morais
Editor: Bruno Stephan

Homenageados na aula inaugural:]

Em memória de Ana Paula Crosara de Resende e Marco Antonio de Queiroz, o MAQ.

Esse curso nasceu da teimosia e da paixão de Ana Paula Crosara de Resende e do MAQ, como era conhecido o Marco Antonio de Queiroz – essas são as iniciais de seu nome.

Ana Paula e MAQ foram homenageados durante aula inaugural

PraCegoVer: Na foto: Ana Paula Crosara Resende e Marco Antonio de Queiroz.

Ambos eram amigos e ativistas em prol da Inclusão e da Acessibilidade e ambos nos deixaram cedo demais.

Ana Paula, cadeirante, advogada, moça bonita, elegante e vaidosa, marcava presença onde chegasse, com seus cabelos e batom vermelhos, um sorriso aberto de boas vindas e olhos que brilhavam, na alegria do encontro.

Já o MAQ era alto, magro, jeito de garotão carioca, boa praça e bom de papo. Ficou cego com pouco mais de 20 anos. Foi um dos primeiros a surfar na Internet, pegando a onda da acessibilidade. Tornou-se exímio nesta arte e ensinou muitos, sempre generoso.

Ambos eram fãs da audiodescrição e fizeram tudo o que puderam para divulgá-la e fortalecê-la.

Assim, em 2008, Ana Paula impetrou a Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental a favor da implantação da audiodescrição nas televisões e sistemas de telecomunicações do Brasil, que exigia imediatamente a audiodescrição em todos os contratos de concessão, permissão e delegação, garantindo sem restrições o direito das pessoas com deficiência a este tipo de serviço.

Posteriormente, quando Ana Paula estava na Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, em Brasília, que é um órgão integrante da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, sugeriu a destinação de verba para a realização do 2º Encontro Nacional de Audiodescrição. O evento aconteceu em 2012, com a parceria da Secretaria e dos representantes dos audiodescritores e também organizadores do Encontro (dentre eles, Lívia Motta e Paulo Romeu Filho).

Um dos resultados do evento foi a constatação da urgência de oferecer cursos que atendessem à complexidade e às especificidades das inúmeras aplicações da audiodescrição. Nasceu então a proposta de um Curso de Especialização em Audiodescrição – este aqui, que começa hoje, 20/03/2014, graças à parceria da Universidade Federal de Juiz de Fora e especialmente da Professora Eliana Lucia Ferreira.

Como disse a Professora Lívia Motta, foi Ana Paula quem propôs e viabilizou o Encontro, de onde nasceu a ideia deste Curso. Esse foi um de seus muitos legados.

Como Ana Paula, MAQ também viveu intensamente: casou-se, teve um filho, criou um site (Bengala Legal), que depois deu origem a um blog, escreveu um livro, deu cursos e palestras e ensinou muitos a deixarem seus sites acessíveis. Em reconhecimento de seu trabalho, ganhou prêmios importantes.

Sua assinatura eletrônica era uma aula de inclusão, civilidade e acessibilidade: seu celular estava lá, pra quem quisesse falar com ele:

P. S.: Você está recebendo um e-mail de uma pessoa cega. Isto é inclusão digital! Comemore conosco. Uma sociedade inclusiva é aquela que reconhece, respeita e valoriza a diversidade humana.
MAQ – Rio de Janeiro – Cel.: (21) 9912-0000.

Mas uma das joias do seu currículo era ter sido o primeiro cego a ser jurado de filmes com audiodescrição, no Festival Assim Vivemos, quando conheceu esse recurso. Foi amor à primeira vista! Desde então, assistiu todos os filmes com audiodescrição, além de divulgá-lo através de artigos, que aliavam irreverência e profundidade.

Ana Paula e MAQ foram grandes incentivadores da audiodescrição. Portanto, é justo lembrar deles nesse momento histórico, durante a aula inaugural que marca o início do primeiro Curso de especialização em audiodescrição no Brasil, na Universidade Federal de Juiz de Fora.

Creio que nem é preciso descrever o sorriso aberto dos dois, estejam onde estiverem.

Escrito por Marta Almeida Gil

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