O audiodescritor, suas faces e apetrechos

A produção sobre a audiodescrição, aqui no Brasil, cresce significativamente: são dissertações, teses, livros e artigos que são disseminados em sites, blogs, publicações e revistas em formato digital ou impresso. Mas… e a figura que dá vida a esta técnica? Ou será que é uma arte? Muitos a definem como tecnologia assistiva, recurso ou mesmo ferramenta de acessibilidade. Seja qual for o nome, continua a pergunta: quem é o audiodescritor? O que ele faz, mesmo, de verdade? E como faz?

Para mim, ele se apresenta com diversas roupagens. Ainda não descobri todas, até porque ele parece um camaleão: dependendo da plateia e do material que está audiodescrevendo, inventa um papel diferente.

Pode ser um educador, no sentido mais amplo e divertido da palavra: identifica um personagem, um tema, até mesmo uma palavra no seu material de trabalho e convida a plateia a desenhar, cantar, dançar, vestir um adereço que ele trouxe – sim, porque ele trabalhou muitoooo antes de se apresentar em público. Esse destaque vai prender a atenção do público, estimular reflexões, contribuir para a retenção de conceitos ou valores de forma leve, divertida e duradoura, deixando uma doce lembrança. Às vezes ele parece um mágico, capaz de tirar de sua cartola um jeito novo de descrever movimentos – até de balé, imagine só – cenários, figurinos, maquiagens, de circo mambembe ou de ópera clássica. Ele também é um tradutor, que traduz imagens em palavras, com tanta magia que a gente nem se dá conta do trabalhão que teve. Já foi visto em casamentos, empresas, maternidades, lojas chiques de shopping center, consultórios médicos, desfile de moda, cinemas e teatros. Museus, então… não sai de lá. Conhece quase todos.

É possível reconhecer o audiodescritor por seus olhos e ouvidos: eles têm antenas compridas e sutis, que estão constantemente percorrendo o ambiente, à procura de coisas prá descrever, de pessoas que saibam explicar o que os olhos enxergam, mas nem sempre veem ou que os ouvidos captaram, mas que não escutaram direito. Pois é, ele precisa de explicadores, porque é muito curioso, mas não dá conta de tudo. Mas sabe, sim, identificar direitinho quem é um bom explicador. Essas antenas também são uma maravilha prá captar tudim: ele sabe escutar em completo silêncio, olhos brilhantes, um leve sorriso e atitude de espreita, pronto a fazer uma pergunta que traga a descoberta, aquela sensação de “eureka”, sabe como é? Ele não dá a resposta pronta e acabada: seu “barato” é fazer o outro descobrir sozinho. Parece que o Paulo Freire é seu ídolo…

Sua alegria e seu entusiasmo são contagiantes; lembra um duende, que espalha alegria ao brandir o roteiro – seu apetrecho favorito, com o qual faz mil e uma artes, promovendo o reencantamento do mundo. Prá dar conta de tantos ofícios, de tantos assuntos e conversas, para crianças de 2 a 100 anos, ele também precisa ter olhos de curioso, pernas de fofoqueiro, espírito de descobridor inquieto, vasto estoque de empatia e um coração generoso, que usa os movimentos de sístole e diástole para receber e enviar Informação e Vida, numa dança constante. E, quando seu trabalho termina, ele sai de fininho, com o coração em festa e já procurando o que fazer.

Nota

Este texto foi escrito para agradecer e homenagear os alunos da disciplina “Inclusão Cultural das Pessoas com Deficiência e os diferentes públicos da Audiodescrição”, que integra o curso de Especialização em Audiodescrição da Universidade Federal de Juiz de Fora e principalmente a Profa. Dra. Lívia Motta.

Marta Gil – consultora na área da Inclusão de Pessoas com Deficiência, socióloga, Coordenadora Executiva do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas, colunista da Revista Reação; associada da Ashoka Empreendedores Sociais e membro do Conselho Curador do Instituto Rodrigo Mendes.

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