Protagonismo da pessoa com deficiência visual em busca da audiodescrição

Nos últimos meses me dediquei exclusivamente aos cursos de formação de professores, tendo atuado, simultaneamente, em três municípios no interior de São Paulo: Caraguatatuba, Tremembé e Cruzeiro. Apesar de ministrar cursos de Braille para professores desde 2006, esses três, em especial, tiveram algo de diferente e de muito inovador. Foi a primeira vez que, em uma formação presencial, adotei a disciplina de audiodescrição (AD), dedicando um dos nossos encontros para apresentar esse recurso aos cursistas videntes. Pretendo registrar aqui o motivo pelo qual passei a investir muito na divulgação da AD entre os profissionais da educação e o público em geral.

Estar em um município no interior do Estado de São Paulo é um privilégio e, ao mesmo tempo, um isolamento cultural no que diz respeito a acessibilidade. Na medida em que as pessoas com deficiência visual começam a ter acesso à informação, em especial a existência da audiodescrição e sua crescente adoção em eventos culturais nos grandes centros urbanos, passam a cobrar acessibilidade. Entusiasmados com essa nova realidade e ansiosos pela chegada dessa novidade por aqui, esse público se sente vitorioso e aguarda, como um troféu, que tal recurso ganhe mais popularidade.

Acontece que a cobrança por si só não garante a divulgação e o protagonismo da pessoa com deficiência frente a uma acessibilidade desconhecida por muitos, porém necessária para todos. Essas pessoas precisam assumir a responsabilidade de cobrar o direito e também devem ter o dever de participação como atores desses espetáculos.

Certa vez, quando foi promovida uma peça de teatro com audiodescrição, a primeira na cidade de Guaratinguetá, acontecida em junho de 2012, muitas eram as expectativas e bastante eram os entusiasmados inscritos para esse evento. A divulgação aconteceu com muito primor, em veículos locais e regionais de comunicação, nas mídias impressas e faladas, de boca em boca e através da distribuição de panfletos em Braille. A cobrança desse público não passou de mera especulação, porque no dia do evento poucos foram os que realmente apareceram por lá. Depois disso nada mais aconteceu, nem mesmo um retorno por parte de quem assistiu, nenhuma cobrança e nenhum outro evento promovido.

Percebo que a audiodescrição é um recurso essencial para pessoas cegas e com baixa visão e que pra ganhar popularidade, até mesmo entre esse público, é preciso investir na divulgação. Antes disso, é indispensável que esse público, mesmo que minoritário, dê o feedback para que os profissionais da audiodescrição consigam compreender a abrangência e aprimorar a qualidade desse trabalho, que se encontra em franca expansão. Isso significa que não basta cobrar se não houver a participação efetiva das próprias pessoas com deficiência envolvidas e que muito se beneficiariam com a presença em massa desse recurso.

Partindo dessa premissa, passei a introduzir o conceito de audiodescrição dentro dos cursos de Braille que ministro a fim de que esses professores levem a audiodescrição para dentro de suas aulas, para as exposições escolares, para os eventos e, principalmente, interajam com o governo local para que promovam espetáculos acessíveis. De posse desse conhecimento, cabe a eles, pesquisar, estudar e expandir o conhecimento e a prática da audiodescrição quando apresentarem em suas aulas conteúdos e conceitos no formato de imagem. De repente um livro didático passa a ganhar maior significado para o aluno cego, um mapa torna-se mais compreensível, uma obra de arte, uma fotografia, um filme, entre outros. A audiodescrição está presente em todos os lugares, por todos os cantos e, dentro do ambiente escolar ela se fará visível pela voz desses professores e se multiplicará pelo ecoar de vozes em direção da pessoa cega e com baixa visão em busca de uma maior e de uma melhor acessibilidade.

Relato o quão significativa foi nossa penúltima aula em Caraguatatuba, cuja audiodescrição esteve presente durante a exposição dos conceitos e na exibição de obras que continham essa narrativa, como filmes, peças publicitárias, trecho de documentários, reportagens, teatro, esculturas e fotografias. A cada nova descoberta, as expressões de espanto e de gratidão tomavam conta do ambiente. O desconhecido universo da audiodescrição contagiou todos naquela aula. Compreenderam algumas diretrizes, prestaram a atenção em cada detalhe e começaram a perceber que nem tudo pode ser explicado e compreendido apenas por imagens. Até arriscaram algumas pequenas audiodescrições ao vivo e algumas construções improvisadas de roteiros. Embora pertençamos ao mundo visuocêntrico, muito do nosso repertório imagético depende, também, de outras sensações e é na junção de todas essas formas de perceber as imagens que eles puderam compreender a importância da tradução visual por meio de palavras.

por Luciane Molina – pessoa com deficiência visual que atua com formação de professores na área da deficiência visual. Consultoria em inclusão escolar e acessibilidade.

Fonte: Guia Inclusivo

Mais sobre audiodescrição
Alunos do curso de Especialização em Audiodescrição, promovido pelo Núcleo de Pesquisa em Inclusão, Movimento
Para apresentar o tema audiodescrição aos estudantes que participam de um projeto de iniciação científica
Os profissionais do setor de Produção de Material Didático do Cead/UFJF passam por constantes atualizações.


Mais sobre audiodescrição
Alunos do curso de Especialização em Audiodescrição, promovido pelo Núcleo de Pesquisa em Inclusão, Movimento
Para apresentar o tema audiodescrição aos estudantes que participam de um projeto de iniciação científica
Os profissionais do setor de Produção de Material Didático do Cead/UFJF passam por constantes atualizações.