Audiodescrição para pessoas com deficiência visual e intelectual

O relato a seguir é resultado do trabalho de conclusão da disciplina Inclusão Cultural das Pessoas com Deficiência e os Diferentes Públicos da Audiodescrição, ministrada pelas Professoras Marta Gil e Cristiana Cerchiari, do I Curso de Especialização em Audiodescrição promovido pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em parceria com a Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, sob coordenação da Prof.ª Dr.ª Eliana Lúcia Ferreira e da Dr.ª Lívia Maria Villela de Mello Motta. Título do trabalho: Audiodescrição Para Pessoas Com Deficiência Visual e Intelectual.

A tarefa em questão consistia em realizar uma sessão de cinema com audiodescrição para espectadores com deficiência visual, seguida de uma conversa informal acerca do recurso. A atividade foi realizada no Projeto Rumo Norte, em Porto Alegre, em dois grupos mistos, envolvendo pessoas com deficiência visual e pessoas com deficiência intelectual. A programação contou com a exibição de animações em curta-metragem, possibilitando que os espaços entre um filme e outro fossem preenchidos por conversas informais. Nosso objetivo era verificar a eficácia da audiodescrição enquanto recurso de acessibilidade para os espectadores com deficiência visual, em um exercício que ganhou novos contornos a partir das possibilidades de comparação entre as reações de cada um dos públicos presentes.

PLANEJAMENTO.

“Se alguma coisa pode dar errado, dará”, reza a sarcástica lei de Murphy. Assim é. O relato a seguir descreve as agruras e desventuras que só a tecnologia, nas mãos inexperientes de duas aspirantes a pesquisadoras, é capaz de provocar.

A atividade no Projeto Rumo Norte foi agendada com razoável antecedência, bem a tempo de realizar um planejamento estruturado, selecionar material, fazer um reconhecimento do público alvo e trocar ideias com as pedagogas responsáveis. Teríamos três horas para exibir o filme e conversar com os espectadores na tarde do dia 06 de maio. Trabalharíamos diretamente com os beneficiários com deficiência visual, a fim de abordar as possibilidades que a audiodescrição oferece para pessoas cegas e com baixa visão.

Já conhecíamos a entidade, que havia sido visitada oficialmente pela Letícia para atividade solicitada pelo professor Laércio Sant’Ana, em disciplina anterior. O Rumo Norte atende pessoas com as mais variadas deficiências, através da oferta de cursos de capacitação, apoio terapêutico e grupos de convivência, concentrando sua linha de ação sobre três eixos: pedagogia, psicologia e assistência social. Em ressonância com a missão e os valores do projeto, boa parte dos mais de trinta funcionários são pessoas com deficiência. Desde o primeiro momento foi possível estabelecer uma relação cordial com a direção e com a equipe pedagógica do Rumo Norte, calcada no comprometimento e na cumplicidade, favorecendo a troca de informações, conhecimentos e experiências que servem como subsídio para o aprimoramento de ambas as partes.

Durante todo o planejamento foi possível contar com o apoio da diretora, Irmã Iralda Pereira Cassol; da coordenadora pedagógica, Bruna Schatschineider; e da articuladora pedagógica, Liziane Behrenz Silva, que acolheram a proposta com muita satisfação, uma vez que a equipe tem ciência da importância da oferta de atividades culturais aos beneficiários do Projeto.

A seleção de filmes foi feita em conjunto. Fornecemos às pedagogas uma lista com seis longas-metragens e onze curtas-metragens, a fim de verificar quais os títulos mais apropriados ao público da instituição. A decisão de utilizar curtas-metragens de animação foi unânime, uma vez que essa linguagem se adequa a qualquer público. A duração da programação também foi levada em consideração, pois uma sessão mais curta nos permitiria ter mais tempo para conversar com os espectadores. Outro fator decisivo foi o conteúdo social dos filmes escolhidos, condição propícia para fomentar o debate. As animações selecionadas foram A Improvável Todavia Autêntica História do Anão que Virou Gigante, Imagine uma menina com cabelos de Brasil e A Última Reunião Dançante3. De acordo com nosso planejamento, cada um dos filmes seria seguido de uma roda de conversa específica, possibilitando uma avaliação precisa acerca da compreensão do conteúdo e das imagens, assim como a construção de um entendimento mais consistente sobre a audiodescrição e seus benefícios.

No dia anterior à atividade, uma novidade: seriam duas as sessões, de uma hora e meia cada. E contemplaríamos também os grupos com deficiência intelectual, para que a atividade incluísse todos os beneficiários presentes na entidade na tarde de terça-feira. Vimos com bons olhos essa solicitação. Afinal, seria, para nós, mais uma oportunidade para investigar como a audiodescrição funciona para diferentes públicos. Além disso, simpáticas que somos à ideia de inclusão, não nos passava pela cabeça qualquer razão que justificasse o isolamento de um ou outro grupo.

TERÇA-FEIRA, 06 DE MAIO DE 2014.

A ideia era chegar com pelo menos quarenta e cinco minutos de antecedência, a fim de dar conta de qualquer percalço, que já andamos íntimas de Murphy e sua lei. Auditório preparado, cadeiras dispostas em formato de plateia, projetor posicionado. O fato de estar ligado, no entanto, não significa que funcionasse. Foi preciso que Irmã Iralda corresse a comprar um novo cabo, que também não funcionou. E não havia assistência técnica que nos pudesse socorrer por telefone, é lógico (se bem que até isso tentamos). Como as soluções mais simples costumam ser as mais eficazes, trocamos de laptop e resolvemos o problema.

A sessão começou com onze espectadores, seis deles com deficiência visual. Apenas quatro pessoas, dentre os espectadores cegos e com baixa visão, disseram já conhecer a audiodescrição. No bate-papo posterior à exibição do primeiro filme, porém, ficou evidente que nem todos realmente conheciam o recurso. Euclides, que é professor da entidade e tem deficiência visual, era o único que conhecia bem essa ferramenta, pois havia participado de um curso de capacitação em audiodescrição em 2012.

Se achávamos que os problemas de projeção se limitavam ao cabo, estávamos muitíssimo enganadas. A extensão que unia o projetor à tomada era curta, o que impedia que o equipamento fosse centralizado. Projetada em um quadro branco que ocupava toda a extensão da parede, a imagem era atravessada bem no centro por uma linha vertical. Ainda que isso não fizesse a menor diferença para quem não enxergava, atrapalhava profundamente os videntes. A deficiência intelectual, em alguns casos, acentuava ainda mais o incômodo provocado por aquela linha divisória, causando certa perturbação na plateia.

VÍDEO 1: A IMPROVÁVEL TODAVIA AUTÊNTICA HISTÓRIA DO ANÃO QUE VIROU GIGANTE.

Acalmados os ânimos, começamos a sessão mostrando um trecho de O anão que virou gigante sem audiodescrição, para que pudéssemos avaliar o grau de compreensão das pessoas com deficiência visual. Ninguém compreendeu a cena, mas não foi pela falta de audiodescrição. As caixas de som eram pequenas demais e pouco potentes para uma sala espaçosa como aquela. O susto crescia: agora corríamos o risco de ter uma sessão com audiodescrição inaudível! Fechamos portas e janelas, desligamos ventiladores, aproximamos as cadeiras ao máximo e confiamos no silêncio absoluto da plateia.

Dedos cruzados, repetimos a projeção sem audiodescrição. Dessa vez todos conseguiram ouvir. A cena continuava incompreensível, mas agora, sim, pela ausência de audiodescrição. Exibimos o mesmo trecho com audiodescrição, para alívio de todos. Pedimos que explicassem o que significava aquela narração. A intenção era que chegassem, por conta própria, à definição de audiodescrição. Uma senhora com baixa visão foi a primeira a se manifestar: “Vão falando pra ti, que não enxerga, aí tu sabes o que está acontecendo”. Um rapaz com deficiência intelectual acrescentou: “Aquele que enxerga tem que ajudar aquele que não enxerga.”

Uma vez compreendido o conceito, era hora de começar oficialmente a sessão, agora com a exibição completa da animação. Com audiodescrição, é claro.

O curta A Improvável Todavia Autêntica História do Anão que Virou Gigante conta a história de um rapaz anão que, inexplicavelmente, começa a crescer até tornar-se gigante. Os espectadores com deficiência visual permaneceram atentos durante todo o filme. Mais do que isso, suas expressões evidenciavam envolvimento e satisfação. Já o público com deficiência intelectual mantinha posturas variáveis. Alguns chegavam a contrair os músculos do rosto, tamanha a concentração, enquanto outros ficavam completamente alheios.

Nesse momento percebemos que, ainda que não fosse a intenção inicial, nos seria impossível não comparar os dois públicos presentes. Tínhamos, na nossa frente, uma situação muito rica. Por outro lado, a presença do público com deficiência intelectual e o interesse que tínhamos por suas reações impedia que nossa atenção mantivesse o foco absoluto nas pessoas com deficiência visual, público alvo dessa pesquisa.

Ao final da exibição, demos início à primeira roda de conversa perguntando sobre a mensagem do filme. Vários participantes disseram, quase que em uníssono, que a animação queria transmitir a ideia de que “todo mundo é igual”. Outros declararam, com a mesma convicção, que “nem todo mundo é igual”. O fato gerou uma reflexão interessante, de onde concluíram que todo mundo é igual E todo mundo é diferente.

Continuamos a investigar o nível de compreensão. Uma surpresa: para alguns espectadores com deficiência intelectual, o filme mostrava alguém pequenininho que cresceu ao longo do tempo, como acontece com as crianças ao se tornarem adultos. Para eles, o processo era natural e corriqueiro.

Perguntamos como o rapaz era tratado pelos outros na época em que era anão. A resposta foi unânime: “mal”. Em poucos segundos, conseguiram elaborar ainda melhor: “com desprezo”. Na opinião desse grupo, essa relação mudou quando o rapaz se tornou gigante, passando a ser amado e apoiado pelos demais.

Apesar da audiodescrição funcionar como suporte, percebemos que o público com deficiência intelectual ainda tinha uma interpretação equivocada sobre o filme, tanto no que se refere à leitura das imagens quanto ao enredo e ao conteúdo. A intensa participação desses espectadores calou os participantes com deficiência visual, que precisaram ser especialmente estimulados a falar. Por essa razão, não conseguimos avaliar concretamente o nível de compreensão desse grupo.

VÍDEO 2: IMAGINE UMA MENINA COM CABELOS DE BRASIL.

Ainda nos primeiros momentos da atividade, o número de espectadores começou a aumentar. Em pouco tempo tínhamos 28 participantes na sala. O entra e sai inicial prejudicou um pouco a concentração dos presentes, mas tudo se estabilizou antes da segunda animação, Imagine uma menina com cabelos de Brasil.

Esta animação explora a relação do Brasil com outros países, simbolizados por um grupo de meninas cujos penteados desenham mapas. A exibição despertou a atenção das mulheres presentes, que começaram a discutir cabelos e cabeleiras, as “jubas” e os crespos, o cabelo alto e indomado… A empolgação tomou conta da sala.

Dessa vez, no entanto, pretendíamos concentrar nossa atenção nos espectadores com deficiência visual. E contávamos com uma forte aliada: Ingrid, uma jovem com baixa visão, lúcida, inteligente e com alto nível cultural. Ela mesma parecia saída de um filme francês, de pele clara, óculos de aros pretos emoldurando os olhos grandes e uma boina sobre os cabelos aloirados que chegavam à altura dos ombros.

Foi ela quem deu o veredicto: “A ideia não é o cabelo. A ideia é mostrar que cada um é de uma etnia diferente.” Disse ainda que isso ficava claro “porque cada cabelo tinha o formato do país de origem”.

Apesar de nossas tentativas e das excelentes contribuições de Ingrid, mais uma vez o público com deficiência visual foi intimidado pela participação intensa do grupo com deficiência intelectual. Não foi possível definir precisamente a contribuição da audiodescrição para a compreensão do filme, uma vez que o público em questão mergulhou em divagações que não possuíam relação direta com a animação. Como retorno positivo deste momento da atividade, soubemos que o psicólogo do Rumo Norte, que orienta um grupo de convivência, identificou intenso interesse dos participantes em relação a esse curta-metragem. Voltou a exibir o filme, envolvendo o grupo em discussões bastante profundas, que não se esgotaram em um único encontro e que possibilitaram a abordagem de questões relativas ao preconceito, seja em relação à deficiência, à classe social ou à opção afetiva e sexual.

VÍDEO 3: A ÚLTIMA REUNIÃO DANÇANTE.

Dando continuidade à sessão, exibimos o curta A Última Reunião Dançante, que mostra os conflitos de um garoto porto-alegrense de 14 anos. A história se passa em 1989 e tem um apelo muito forte junto aos gaúchos de trinta e tantos anos, em função das memórias afetivas que desperta. E foi justamente essa a nossa abordagem: queríamos saber quem lembrava dessa época e quais eram suas memórias mais queridas. Embarcamos em uma verdadeira viagem no tempo: reuniões dançantes, Baré Cola, a entrega de cascos para comprar refrigerante, as gangues de bairro, o primeiro amor…

A empolgação foi tanta que os espectadores passaram a solicitar outros títulos de filmes que gostariam de assistir no Rumo Norte, sempre com audiodescrição: “o filme sobre a guria que tem retardo leve”, pedia Franciele. Seu namorado queria assistir a Rain Man, “aquele com o Dustin Hoffmann”. Rocky também foi mencionado, “porque fala em superação”. Arca de Noé foi outra solicitação. Euclides disse que gostaria de assistir à Hellen Keller. Ingrid falou em um filme sobre um garoto com deficiência visual que conseguiu se integrar com a comunidade do lugar onde vivia através da luta romana. Depois sugeriu o longa de animação Como treinar seu dragão, por propiciar uma relação com a questão da deficiência e da necessidade de adaptação, em especial dentro da própria família (no filme, um garoto ajuda um dragão ferido a voltar a voar, construindo uma espécie de prótese para o animal).

Toda a argumentação de Ingrid deixava claro que a cultura é parte integrante do seu dia a dia. Ela revelou que costuma ir bastante ao cinema, apesar da baixa visão prejudicar o entendimento (ela tem glaucoma em ambos os olhos, com 1% de visão no olho esquerdo e 10% no direito). Para ela, filmes “muito escuros” são especialmente difíceis. Nesses casos, a audiodescrição é fundamental.

MAIS UM VÍDEO: OS OLHOS DO PIANISTA.

Como o tempo, às vezes, parece tremendamente maleável, conseguimos encaixar em nossa sessão uma animação extra: Os Olhos do Pianista4, que mostra a relação entre um pianista de cinema e uma menina. O pianista é cego e sua amiguinha é responsável por indicar-lhe cada mudança de cena do filme que ele acompanha ao piano através de toques codificados.

Pelo jeito, Murphy não estava muito disposto a prolongar a sessão. A imagem ficou restrita a um quadradinho no canto superior esquerdo da tela. E a nós foi negada qualquer possibilidade de navegação: impossível pausar ou reprisar algum trecho. Não nos demos por vencidas e propusemos que todos assistissem àquela animação orientados apenas pela audiodescrição.

Como era de se esperar, essa alternativa trouxe grande dificuldade para os espectadores com deficiência intelectual, inviabilizando a compreensão. Já Ingrid foi rápida: “A menina era os olhos do pianista!”. Em poucos segundos, conseguiu relatar toda a história. As demais pessoas com deficiência visual não se manifestaram, o que impediu uma avaliação mais ampla.

Os participantes pareceram aprovar a sessão de cinema, pois ao final pediram que a atividade se repetisse, de preferência com frequência, com novos filmes e espaço para debate.

SESSÃO ADICIONAL.

A programação para a segunda sessão era idêntica, com as mesmas animações e a mesma sequência de perguntas. Os resultados, porém, foram bem diferentes, em função das características do grupo, que desta vez contava com cinco pessoas com deficiência visual e duas pessoas com deficiência intelectual. Além da predominância de pessoas com deficiência visual, o perfil dos dois jovens com deficiência intelectual, Leonardo e Lutero, diferia em muito dos integrantes do grupo anterior. Eram tranquilos, afetivos e concentrados. Mostraram-se muito interessados durante toda a atividade e tiveram participação ativa nas rodas de conversa, sempre de maneira delicada e comedida.

Os participantes com deficiência visual, por sua vez, eram bastante diversificados. Noêda esteve ensimesmada e distraída ao longo de quase toda a atividade e pouco participou das rodas de conversa. Luís, que tem baixa visão, apresentou indícios de grande satisfação com a atividade, permanecendo envolvido durante todo o tempo, ainda que demonstrasse, por vezes, alguma dificuldade de entendimento, provavelmente por falta de hábito. Quando orientado, compreendia perfeitamente o conteúdo das animações. O grupo contava ainda com Euclides e Daniel, ambos professores do Rumo Norte e frequentadores assíduos de eventos com audiodescrição. Um quinto homem assistiu em silêncio às animações, e em silêncio permaneceu durante as rodas de conversa.

Como se pode perceber, o número reduzido de participantes possibilitou uma conversa mais íntima, onde podíamos chamar cada um pelo nome, nos aproximar e detectar características pessoais de cada um deles. Também permitiu que eliminássemos de vez os problemas de projeção! Pedimos que todos se aproximassem da mesa, para que pudessem ouvir melhor e para que os dois rapazes videntes assistissem às animações no monitor do computador.

Começamos pela exibição de uma cena sem audiodescrição, seguida da versão com audiodescrição, para que fosse entendida a natureza do recurso. Noêda e Luís conseguiram relatar a cena com precisão, depois de assistirem à versão audiodescrita. Luís, que até então não conhecia o recurso, compreendeu prontamente: “Ela falava o que aparecia nas imagens”.

Depois da exibição de O anão que virou gigante, buscamos explorar o conteúdo do filme. Luís definiu rapidamente a mensagem central: “As pessoas não aceitam as pessoas diferentes”.

Discutimos as possibilidades (ou impossibilidades) de um anão virar gigante. Luís levantou um ponto importante e que é abordado muito discretamente em determinada cena da animação: enquanto o protagonista do filme crescia, houve um momento intermediário em que teve altura compatível com a dos demais. Segundo palavras do próprio Luís, naquele ponto o rapaz se sentiu integrado.

Os rapazes com deficiência intelectual também demonstraram plena compreensão em relação ao curta. Quando perguntados sobre como as pessoas tratavam o anão, responderam que tratavam mal, que debochavam. Foi Luís quem chegou ao termo “preconceito”. Em grupo, concluíram que o medo que as pessoas sentiam do rapaz quando ele se tornou gigante também era uma forma de preconceito.

Daniel agregou valor à conversa ao relatar as dificuldades que uma pessoa com nanismo encontra em suas tarefas mais cotidianas, trazendo novas referências para os participantes.

O segundo curta foi Imagine uma menina com cabelos de Brasil. A reação e o entendimento por parte dos espectadores foram muito semelhantes ao grupo anterior.

A terceira animação, A Última Reunião Dançante, gerou também neste grupo uma conversa animada. Mais uma vez perguntamos sobre as referências de cada um deles em relação à época retratada no filme. O jogo de Atari, as gangues de rua, o aquaplay e o cubo mágico, foram alguns exemplos levantados pelo grupo.

Perguntamos onde se passava a história e como eles conseguiam identificar o local. Responderam que se passava em Porto Alegre e que isso era perceptível pelo sotaque, pelas gírias, pelo pôster do Grêmio afixado à parede do quarto do menino e pelo nome da escola (20 de setembro, data de celebração da Revolução Farroupilha). Note-se que as duas primeiras informações são sonoras, sendo que as duas últimas só poderiam ser acessadas através da audiodescrição.

Mais uma vez nos sobrou tempo e aproveitamos para exibir Os Olhos do Pianista. Nessa segunda sessão, os participantes tiveram dificuldade de perceber a cegueira do personagem (com exceção de Euclides e Daniel). Reprisamos as cenas iniciais, pausando a cada trecho para reforçar as informações transmitidas pela audiodescrição.

Assistimos ao curta uma segunda vez, para que compreendessem a história sob essa nova perspectiva. Em determinado momento, Leonardo interrompeu brevemente para apontar o relógio de bolso que aparecia na animação. O objeto chamou sua atenção, pois já o conhecia por nome. O fato de ser mencionado pela audiodescrição fez com que Leonardo associasse o nome ao objeto e a alguma referência pessoal anterior.

CONCLUSÃO.

Para nós (incluindo aqui a pedagoga Bruna, com quem tivemos a oportunidade de conversar ao final da sessão), a atividade se traduziu em um aprendizado repleto de reflexões e questionamentos.

Concluímos que os dois grupos que participaram da atividade apresentaram características muito diferentes, o que se refletiu em suas reações e na capacidade de compreensão.

Percebemos nitidamente que a audiodescrição pode favorecer imensamente a compreensão por parte das pessoas com deficiência intelectual. No entanto, uma sessão coletiva traz o risco de prejudicar o público com deficiência visual. A roda de conversa com um público e outro exige diferentes abordagens. Também os ritmos diferem: a pessoa com deficiência intelectual tem, muitas vezes, uma elaboração mais lenta do conteúdo apresentado, necessitando, inclusive, de suporte nesse sentido. Por outro lado, a pessoa com deficiência visual precisa de mais tempo para construir a imagem, um processo que acaba por ser sufocado pela participação espontânea, e até mesmo intrusiva, do grupo com deficiência intelectual.

Se essa foi a impressão gerada pelos primeiros resultados, a sessão adicional cuidou de derrubar por terra qualquer certeza, uma vez que os dois públicos permaneceram plenamente integrados. Nos parece seguro afirmar que o número reduzido de participantes nessa ocasião contribuiu para o bom andamento da atividade. Outro fator que deve ser levado em consideração é que a deficiência intelectual é território muito amplo, que não pode ser delimitado de maneira simplista e até mesmo irresponsável. Trata-se de um grupo profundamente heterogêneo, no qual cada indivíduo apresenta características próprias referentes a habilidades de compreensão, concentração e sociabilidade.

As atividades realizadas no Projeto Rumo Norte evidenciam, justamente, a imprevisibilidade das reações. Parece-nos impossível chegar a qualquer tipo de norma absoluta no que se refere à audiodescrição para o público com deficiência intelectual ou à forma de condução de uma atividade cultural voltada a um grupo misto. A regra de ouro é, ainda e sempre, o bom senso. De definitivo, temos apenas a convicção de que fazem-se necessárias – e urgentes – investigações mais profundas e pesquisas específicas direcionadas às diferentes necessidades de cada segmento de público no que se refere ao recurso da audiodescrição.

1- O presente relatório é complementado por dois vídeos com fragmentos da atividade, que podem ser acessados pelos endereços http://youtu.be/rh7h-373I-w e http://youtu.be/ICvh70s-7sQ.

2- Marilena Assis é professora especialista na área da deficiência visual nas redes municipal e estadual do Rio Grande do Sul, Mestre em Gestão e Política da Educação e consultora em audiodescrição.

Letícia Schwartz é audiodescritora-roteirista e narradora da empresa Mil Palavras.

As autoras são pós-graduandas do Curso de Especialização em Audiodescrição pela UFJF.

3- As animações utilizadas para a atividade estão disponíveis no You Tube e podem ser acessados a partir dos seguintes links: http://youtu.be/DzeeVPGN–Q, http://youtu.be/KC19s0WGsFQ e http://youtu.be/1bwBIlsVSmw.

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