Programa de formação de atores incorpora audiodescrição ao currículo

O lançamento do espetáculo Bença marca uma ação inédita no Brasil: a incorporação da audiodescrição como atividade sistematizada de um programa de formação de atores. Todo o processo foi realizado por integrantes da Universidade LIVRE de Teatro Vila Velha. A peça Bença permanece em cartaz de sexta a domingo, até 14 de junho, no Teatro Vila Velha, e a audiodescrição é oferecida ao público sempre aos sábados (20h) e domingos (19h).

Bença: novo espetáculo do programa de formação de atores

"Fazer a audiodescrição de Bença foi um desafio. Sabíamos que seria um trabalho bastante complexo, por se tratar de um espetáculo/instalação, com linguagem não linear e com vinte atores contracenando entre si e com imagens em vídeo", conta Iracema Vilaronga, Mestre em Educação e Contemporaneidade e integrante da LIVRE que coordenou a equipe com outros quatro participantes do programa de formação de atores. Durante cerca de um mês, o grupo trabalhou nas diferentes etapas necessárias para audiodescrever uma peça, entre elas o estudo do roteiro original, acompanhamento de ensaios, elaboração do roteiro audiodescritivo e, por fim, teste e execução.

Programa de Formação de Atores: impactos da audiodescrição na cena

Incorporar a audiodescrição como atividade sistematizada de um programa de formação de atores é uma ação inédita no país e tem mostrado impactos positivos no desempenho desses artistas. "Modificou a minha sensibilidade. Hoje, eu entro no palco e observo com muito mais cuidado o cenário, a movimentação, os gestos, noto detalhes mínimos, que passavam despercebidos", afirma a atriz Amanda Cervilho, uma das responsáveis por elaborar o roteiro audiodescritivo de Bença.

Os efeitos vão além do trabalho de ator, e passam a auxiliar também no processo de encenação. "A audiodescrição é um ótimo parâmetro para um encenador saber se o que ele está fazendo, montando, realmente chega no entendimento do espectador. Ouvir a audiodescrição do espetáculo tem me auxiliado na objetividade das imagens, das ações", conta o diretor Marcio Meirelles, que já se prepara para incorporar aos processos criativos do programa de formação de atores outros recursos de acessibilidade como a tradução para a Língua de sinais. "O meu desejo é que os atores, enquanto se movimentem, falem também em Libras, se comuniquem nas duas línguas. Vamos testar isso e ver como funciona", adianta.

Desafios

Desde 2014 o Teatro Vila Velha tem buscado oferecer o recurso de audiodescrição às produções do programa de formação de atores. Esta ação começou através do Projeto Teatro para Sentir, realizado pelo Coletivo Diversa, que permitiu a tradução em libras e audiodescrição de três montagens – A Mulher como Campo de Batalha, Relato de uma guerra que (não) acabou e Bonde dos Ratinhos. Mesmo após o fim do projeto, o Vila conseguiu manter a audiodescrição do infantil Bonde dos Ratinhos por outras três temporadas, graças a parceria com aACESSU – empresa de consultoria e treinamento em acessibilidade – até incorporar, a partir de maio de 2015, a atividade como parte do programa de formação de atores da Universidade LIVRE de Teatro Vila Velha.

Acessibilidade: desafio do programa de formação de atores

Um dos maiores desafios tem sido a atração de pessoas com deficiência visual. Desacostumados a ter as salas de teatro preparadas para o seu acesso, o público exige um grande esforço de mobilização. "O hábito da frequência de pessoas com deficiências só será adquirido quando os espaços culturais disponibilizarem e divulgarem os recursos de acessibilidade, para que haja de fato a democratização da arte e dos produtos culturais e esse público tenha o teatro como opção de lazer e cultura", chama a atenção Iracema Vilaronga.

SOBRE BENÇA:

Espetáculo/instalação que celebrou os vinte anos do Bando de Teatro Olodum, trata do respeito aos mais velhos e homenageia o tempo, a memória cultural do povo negro e sua ancestralidade. Com linguagem contemporânea e não linear, o espetáculo trata a passagem do tempo como algo construtivo e enriquecedor. Não um tempo cronológico que simplesmente passa, mas o tempo das coisas, ou seja, ele é circular e traz benefícios. Em cena, os 18 atores e dois músicos contracenam entre si e com imagens em vídeo, projetadas em três telas. Aparecem Bule-Bule, Cacau do Pandeiro, D. Denir, Ebomi Cici, Makota Valdina e mãe Hilza – figuras emblemáticas, e guardiãs da cultura afro-brasileira, que dão depoimentos sobre os temas da peça. Os movimentos vêm de rituais afro brasileiros e a música trava um diálogo entre ritmos sagrados de tambores, vozes humanas e sons sampleados e manipulados digitalmente.

Bença marca ainda a volta de Márcio Meirelles como diretor de teatro, fato que não acontece há quatro anos, quando ele assumiu a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. "Posso definir esse trabalho como um espetáculo de instalação, que eu fui descobrindo como fazer durante o próprio processo", reflete Meireles. Os diálogos abstratos de enredo bem tramado ganham corpo num palco com 20 metros de boca de cena. Nesse espaço, os vídeos conduzem o espectador para o sentido do espetáculo, que pode escolher que imagem quer acompanhar entre os três telões de exibição simultânea.

São sete temas principais que correspondem a sete diferentes blocos: Começo, Mais Velhos, Respeito, Crianças, Morte e Fim. Meia hora antes do começo da peça, a ação já está em andamento – enquanto a plateia vai se acomodando, os atores estarão visíveis no tablado, cantando e tocando tambores e atabaques. Os telões também já estarão ligados, com imagens de atores negros que atuavam antes de 1990, ano de surgimento do Bando de Teatro Olodum. Para completar, dois componentes do elenco filmam a entrada do público, com transmissão simultânea. A partir daí, a cada bloco dois atores se revezam na filmagem do próprio espetáculo.

Com linguagem contemporânea e não linear, a peça, ao falar dos mais velhos, trata a passagem do tempo como algo construtivo e enriquecedor. Não um tempo cronológico que simplesmente passa, mas o tempo das coisas, ou seja, ele é circular e traz benefícios.

"O tempo, pra cultura banto, é muito profundo e envolve a formação de tudo, já que não é só o tempo do homem. É aí que entra a ancestralidade. Quando se diz que os orixás são ancestrais é porque eles vieram antes do ser humano, assim como a natureza veio antes do ser humano. Foram eles que possibilitaram o nascimento da vida humana e o seu desenvolvimento. A gente é o resultado de toda essa natureza criada antes e essa essência de ancestralidade, portanto, deve ser respeitada", Makota Valdina

Com isso, a montagem também passa a mensagem do saber envelhecer bem. "Em nossas entrevistas, encontramos líderes que parecem resistir ao extremo e se mantêm vivos apenas esperando que alguém chegue para substituí-los. Isso resume bem o nosso trabalho de garimpagem do conhecimento – um conhecimento que não se encontra nos livros e que acaba se perdendo se não for resgatado"”, afirma a diretora de produção Chica Carelli. Nesse sentido, “saber envelhecer bem” pode ser interpretado como aprender a entender, a dosar e a dominar o tempo. Na fala do cordelista Bule Bule, “quem sabe viver espera a morte com grandeza e produz bastante, até no último momento. Deixa um legado para se comentar e continua vivendo através da sua obra em outras matérias. Se for manso com o tempo, convive com ele e chega onde deseja”.

Tem coisa na juventude que não consigo entender
Velho ninguém quer ficar
Novo ninguém quer morrer
A melhor coisa da vida é ficar velho e viver”,
Bule Bule

Para Cacau do Pandeiro, a morte é uma das etapas do processo natural da vida e deve ser encarada com alegria. "Quem parte cedo é porque não teve aquele merecimento de ficar velho e aí tem que morrer", diz ele. A mensagem positivista do espetáculo mostra que o corpo físico desaparece e se transforma, mas que a essência de cada um é eterna.

No que retoma o respeito aos mais velhos, “Bença” fala também das crianças. "Na minha família, o reconhecimento do saber dos idosos sempre foi natural. Minha bisavó era a vedete da contação de histórias e todo mundo ficava quieto para ouvir", diz Zebrinha, coreógrafo da peça. Ele complementa com um alerta: "os velhos precisam ser preservados mesmo como pessoas físicas”. De fato, o pensamento corrobora com a fala de Makota Valdina em um dos vídeos quando ela lembra que em tempos passados a relação com a antiguidade envolvia uma reverência mais forte. “Dá-se muito valor ao que é novo, ao que é moderno, mas o que é velho está ficando em desuso", afirma a educadora.

Com essa energia ancestral de orixá, tudo conspira a favor de uma justa homenagem à companhia negra mais popular e expressiva da história do teatro na Bahia.

O Projeto:

O espetáculo “Bença” faz parte de um projeto maior chamado “Respeito aos Mais Velhos”, que ganhou, há dois anos, o edital de manutenção de grupos e companhias de teatro e dança do Programa Petrobras Cultural. As cidades de Salvador, Ilhéus, Feira de Santana e São Luís (Maranhão) receberam workshops de memória e identidade, dança, teatro e música com foco no resgate cultural e sabedoria popular – sempre abertos ao público. A mesma equipe que ministrava os workshops realizava as pesquisas e entrevistas que seriam usadas em “Bença”. Já os seminários aconteceram em Salvador, com os seguintes temas: Patrimônio Imaterial, Quilombos Urbanos, História da Ocupação Territorial do Povo Negro e Registro de Memórias e Tradições.

até 14 de junho / sextas e sábados: 20h // domingos: 19h
*sessões com audiodescrição apenas aos sábados e domingos
teatro vila velha // R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).

O Teatro Vila Velha é gerido pela Sol Movimento da Cena e conta com o patrocínio da Petrobras e com o apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia através do Fundo de Cultura.

Fonte: Blog do Teatro Vila Velha

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