Com criatividade e recursos de acessibilidade, teatros expandem seu público

Atualmente, é possível acomodar em um mesmo espetáculo um público de surdos, que acompanha uma peça com tradução em Libras (Linguagem Brasileira de Sinais), e de deficientes visuais, conectados ao recurso de audiodescrição. O Teatro Vivo, em São Paulo, foi pioneiro no Brasil a usar recursos de acessibilidade para os espectadores com deficiência visual ou auditiva. Ao disponibilizar esses recursos, o teatro conseguiu atrair um novo público até então culturalmente marginalizado: o das pessoas com deficiência.

Teatro Vivo

Com toda essa variedade, o local em que os profissionais de acessibilidade se posicionam precisa ser estratégico. “Já vi colocarem o tradutor na escada de incêndio, por exemplo”, conta a tradutora de Libras Maísa Souza. No caso de um palco italiano, é comum dispor os surdos nas primeiras fileiras da plateia e na diagonal oposta ao tradutor, para facilitar a observação dos gestos e do que está acontecendo no palco.

Para o público com deficiência visual, o trabalho de mediar ganha outra complexidade e cuidado no momento de transmissão. No Brasil, o Teatro Vivo foi pioneiro na ação. Entre 2005 e 2006, iniciou uma programação com recursos de audiodescrição: a plateia utiliza fones de ouvido e um equipamento conectado a um tradutor, que fica dentro de uma cabine nos fundos da plateia e de onde descreve, por meio da voz, as ações dos personagens e a ambientação. Após a empresa ser vendida para a Telefônica, o projeto não teve continuidade.

No Teatro Sergio Cardoso, quem representa essa frente é a audiodescritora Lívia Motta, que explica como foi traduzir o espetáculo “Pulsões”. “Após estudar o material e assistir à peça, faço um roteiro e transformo elementos visuais em palavras. Antes de começar, falamos algumas notas introdutórias para situar a plateia com informações sobre a sinopse, os personagens e a ambientação do palco. E, no final, o público pode subir no palco para tocar os objetos do cenário”.

Com diferentes públicos dentro do teatro, o ideal é equilibrar – a plateia de deficientes visuais é preferencialmente acomodada nas poltronas do fundo, próximas à cabine, e os deficientes auditivos à frente. Para Samara Ferreira, coordenadora do núcleo responsável pelo projeto Terça Tem Teatro com tradução em Libras, na maioria das vezes essa organização pode ser acertada em conjunto com os artistas. “Aqui, a tradutora fica embaixo, na lateral, e com um foco de luz sobre ela. Se a peça é bem iluminada, conseguirmos aumentar a intensidade. Se for o contrário, baixamos a iluminação.” Mantida pelo Itaú Cultural, a ação começou em fevereiro desse ano e mensalmente oferece espetáculos com tradução para surdos.

Outro desafio de se mediar uma obra artística está em transmitir a informação sem sacrificar a subjetividade. “Se um personagem está nervoso”, explica Lívia, “descrevo seu comportamento: se o sujeito olha para os lados e se torce as mãos com ansiedade”. Ela conta que é preciso evitar palavras que restrinjam a compreensão. “Adjetivos como ‘bonito’, ‘feio’ e ‘belo’ não servem. É melhor dar pistas visuais que ampliem o entendimento”.

Uma outra maneira de avançar e ampliar essa compreensão é levar para o palco, na figura do ator, a tradução em Libras. O trabalho conduzido pela atriz e professora de Libras Sabrina Caires, do grupo Rendeiros Contadores de Histórias, rendeu o espetáculo infantil “Onça Que Espirra Não Come Carne”, de Plínio Marcos. A peça faz sua última apresentação no dia 11 de outubro, no Teatro Solano Trindade, em Embu das Artes. “Nós misturamos falas e gestos para que todas as pessoas possam compreender como o tema da peça é político, pois fala de animais que lutam entre si para chegar ao poder. Trazer essa linguagem ajuda a refletir sobre a inclusão”. Agora, Sabrina quer arriscar mais ao colocar um surdo no palco. “Isso seria o máximo da inclusão!”

Sobre incluir, Lívia afirma que a procura desse público por espetáculo tem aumentado nos últimos anos, o que ajuda a acabar com o preconceito, especialmente os mais “bobos”. “Quando comecei a trabalhar com cegos, pensei que não poderia falar ‘você viu isso, você viu aquilo?’, que eles se ofenderiam. Isso é uma besteira, eles nem ligam”, ri.

Fonte: Jornal Todo Dia

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