Curadora do Assim Vivemos fala sobre o festival

O sucesso do curta-metragem Cão Guia, de 1999, em festivais nacionais, fez com que o trabalho, produzido por Lara Pozzobon e dirigido por Gustavo Acioli, fosse convidado a participar de um evento em Munique, na Alemanha, que tinha como tema filmes que mostram pessoas com deficiência. A experiência marcou tanto Lara e Gustavo que eles resolveram fazer algo semelhante no Brasil. Nasceu assim o Assim Vivemos – Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência, que atualmente está na sétima edição e fica no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo até o dia 5 de outubro.

Em coerência com a sua proposta, o festival é acessível a pessoas com diversos tipos de deficiência. O evento, que foi pioneiro no País na área de audiodescrição, disponibiliza fones em todas as sessões para qualquer interessado no recurso; produz seu catálogo em braile; exibe os filmes com legendas para surdos; e traz intérpretes de linguagem de sinais para os debates.

Na edição deste ano, o Assim Vivemos tem em sua programação uma grande quantidade de filmes sobre pessoas com autismo, seguida de perto por filmes sobre pessoas com síndrome de Down e deficiência intelectual.

Na entrevista a seguir, Lara Pozzobon – curadora do festival ao lado de Gustavo Acioli – falou ao Cine Festivais sobre a trajetória do Assim Vivemos e apontou os destaques do evento deste ano.

Cine Festivais: Qual foi a motivação para a criação do festival Assim Vivemos? Ele foi inspirado em alguma iniciativa semelhante de fora do País?

Lara Pozzobon: Tivemos a ideia quando participamos com o nosso primeiro curta-metragem (Cão Guia, com produção de Lara e direção de Gustavo Acioli) de um festival similar em Munique, na Alemanha. Era um filme despretensioso, feito na Universidade Federal Fluminense, mas que rodou por vários festivais do Brasil, ganhou prêmios e acabou convidado para este festival temático alemão. Ficamos muito tocados com aquela experiência e trouxemos a ideia para o edital do Centro Cultural Banco do Brasil. Em 2003 houve a primeira edição, no Rio de Janeiro e em Brasília, e desde então a gente realiza o evento a cada dois anos. A partir de 2009, o Assim Vivemos também acontece em São Paulo.

CF: Por que vocês optaram por realizar o festival a cada dois anos?

LP: O festival tem essa frequência porque no início a gente achava que a produção mundial de filmes de qualidade sobre o tema não era tão grande em quantidade, portanto não seria tão fácil conseguir cerca de 30 filmes para exibir todo ano. Além disso, o próprio festival de Munique, que serviu como exemplo, era bienal, então a gente resolveu seguir esse modelo. Hoje em dia eu acho que já seria possível conseguir anualmente um número grande de filmes de qualidade. Tem muita produção sobre o tema que a gente toma conhecimento, mas que não chega nas nossas inscrições.

CF: Qual é a sua opinião sobre a evolução da produção brasileira sobre pessoas com deficiência nos últimos anos? O que a curadoria busca na seleção dos filmes?

LP: No inicio, com exceção de pouquíssimos diretores, como Roberto Berliner e Evaldo Mocarzel, a gente sentia que não havia muito interesse pelo tema, mas hoje o assunto tem aparecido muito na mídia, e eu vejo que a sociedade tem ficado mais atenta a questões como a acessibilidade, em relação à falta de rampas, elevadores e calçadas adequadas. Eu acho que os estudantes de cinema começaram a se interessar mais, nos últimos 12, 13 anos, por mostrar as pessoas com deficiência. Antes, muitos filmes brasileiros que se inscreviam no Assim Vivemos não tinham linguagem de cinema, eram reportagens apenas, e a gente sempre manteve na curadoria uma exigência de proposta cinematográfica. Paralelamente a isso, a postura do filme em relação aos personagens com deficiência tem que ser adequada, pertinente e respeitosa. Já recebemos filmes não só do Brasil, mas de outros países, que são impiedosos; que, sem saber, são preconceituosos. Temos bastante cuidado em relação a isso, mas a qualidade do filme é o critério principal para a seleção, além da necessidade de que a pessoa com deficiência seja protagonista do trabalho, individual ou coletivamente.

CF: Quais são os destaques da programação deste ano do Assim Vivemos?

LP: Nós não estabelecemos nenhum tipo de cota na seleção, seja de país ou de tipo de deficiência tratada pelos filmes. Nesta edição recebemos um grande número de filmes sobre pessoas com autismo, seguida de perto por filmes sobre pessoas com síndrome de Down e deficiência intelectual. Uma coisa interessante é que os filmes que trazem personagens com síndrome de Down mostram uma evolução na inserção dessas pessoas na sociedade. Há três filmes de ficção com protagonistas com síndrome de Down, um da Austrália (O Entrevistador), um da Eslováquia (Alenka) e outro do Brasil (Marina Não Vai à Praia). Eu também destaco um filme israelense chamado Independente, da diretora Ariela Alush. Ela se feriu em um atentado a bomba pouco antes de começar a estudar cinema, conseguiu sobreviver e agora realizou este filme, que é super divertido. O média-metragem mostra a tentativa de independência e autonomia de um rapaz que fala por auxilio de um computador e cuja deficiência não o impediu de se formar e conseguir um emprego. É muito interessante.

Serviço

7º Assim Vivemos – Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência
Data: De 23 de setembro a 5 de outubro de 2015
Local: Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Álvares Penteado, 112 – Centro – São Paulo – SP)
Entrada gratuita
Telefone: (11) 3113-3651.

Fonte: Cine Festivais

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