Cultura limitada: arte ajuda na inclusão de público marginalizado pela diferença física

Quando receberam o convite do festival Palco Giratório, do Sesc, e da audiodescritora Andreza Nóbrega para inserir audiodescrição, as bailarinas Maria Agrelli e Renata Muniz, do espetáculo Leve, nunca tinham participado de uma produção com recursos de acessibilidade. "Foi muito potente para mim enquanto artista, mas a experiência me ampliou enquanto pessoa. Não tem nem palavras, dá um rebuliço mesmo", tenta definir Maria. A partir de então, todos os solos do grupo contam com o recurso.

Cultura limitada: espetáculo Leve

Leve foi a primeira montagem com audiodescrição e Libras a cumprir temporada no estado. Foto: Coletivo Lugar Comum/Divulgacao

Leve foi a primeira montagem com audiodescrição (serviço de narração do ambiente, expressões e outros detalhes visuais) e Libras (língua brasileira de sinais) a cumprir temporada no estado, no Teatro Hermilo Borba Filho, em 2010. Antes, foram encenados projetos menores, como A menina que contava estrelas e A morte do artista popular, ambos sob tutela do professor da UFPE Francisco Lima, cego desde o nascimento e pioneiro no estado.

De lá para cá, embora esporádicas, as iniciativas atentas às pessoas com deficiência têm se popularizado. No ano seguinte, a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém passou a oferecer audiodescrição e intérprete de Libras, por iniciativa da Superintendência Estadual de Apoio à Pessoa com Deficiência (Sead). O Funcultura, principal edital de fomento do estado, recomenda estratégias de inclusão desde 2011.

A repercussão negativa entre os produtores inspirou a audiodescritora Liliana Tavares a escrever o livro Notas proêmias: Acessibilidade comunicacional para produções culturais. "Eles estavam reticentes quanto à inclusão, alegavam aumento de custos, mas a receptividade tem melhorado", analisa Liliana, que ministrou oficina de capacitação para funcionários de museus neste ano. Ela, produtora do festival de cinema VerOuvindo, e Andreza Nóbrega são as idealizadoras das duas principais empresas focadas em acessibilidade cultural no estado: a COM Acessibilidade e VouVer, respectivamente.

"Eu sinto que estou fazendo algo útil. Hoje, até o meu papel nas artes mudou. Amo atuar, sou uma pessoa da ação cênica. Mas hoje eu sou os olhos da ação. Para cada barreira, há uma tecnologia, uma forma de acessibilidade", acredita Andreza Nóbrega, autora da primeira pesquisa de mestrado sobre o assunto em teatro do país.

Cultura limitada: Agrinez Melo

Agrinez Melo é atriz do grupo inclusivo O poste. Foto: Thaís Lima/Divulgação.

Vários espetáculos, como Lepetit, do Circo Godot, e festivais pernambucanos têm se adaptado, aos poucos, às necessidades das pessoas com deficiência. "Ainda não posso dizer que o Janeiro de Grandes Espetáculos seja acessível. É uma pequena parte, mas nosso sonho é atingir pelo menos 50% da programação", lamenta a produtora Paula de Renor. Em parceria com o programa Arte Sem Limites, do British Council, foram encenados no Recife os espetáculos Let me stay, estrelado pela inglesa Julie Mcnamara, com Libras e audiodescrição, em 2015, e If these spams could speak, protagonizado pelo escocês Robert Softley e audiodescrito, em 2014.

"Quando começamos a nos sensibilizar com relação à acessibilidade, acabamos assumindo-a como compromisso", reforça Maia Aida Barroso, integrante do elenco da ópera O pescador e sua alma e professora de música da UFPE. O sentimento é compartilhado pela atriz Agrinez Melo, da companhia O Poste Soluções Luminosas, cuja sede é adaptada para cadeirantes, inclusive no palco. "Em todos os nossos espetáculos, a gente direciona pelo menos uma sessão para ser acessível. A obra de arte é universal, precisamos adaptar a todos os públicos", defende. Ela participou das montagens Cordel do amor sem fim, Anjo negro e Ombela, além de ministrar uma oficina de figurino para pessoas com deficiência visual.

O festival Conte Outra Vez tem intérprete de Libras desde a primeira edição, em 2012, mas demorou para conseguir atrair os surdos. "Queríamos que as pessoas com dificuldade auditiva sentissem e se encantassem com as histórias da mesma forma que o público em geral. No início, um ou dois compareciam, mas o número foi aumentando", revela a produtora Camila Puntel. Recentes, as montagens acessíveis ainda esbarram na dificuldade de formação de público, mas têm conquistado produtores e espectadores sempre que realizadas.

Cultura limitada: Marcelino Freire

Autor Marcelino Freire gravou os áudios dos próprios livros. Foto: Cultura PE/Divulgação.

Os livros Contos negreiros e Angu de sangue, do escritor de Sertânia Marcelino Freire, foram gravados pelo próprio autor e lançados pela editora Livro Falante. "Todo mundo que me acompanha por aí sabe que eu adoro ler meus contos. Eu costumo dizer que escrevo em voz alta. Registrar em áudio é como se eu tivesse fazendo ‘teatro falado’, ‘novela de rádio’", conta ele, prestes a registrar verbalmente também Nossos ossos. "Tenho dois amigos queridos que são deficientes visuais e ouviram o meu livro e gostaram da interpretação e do ritmo dos contos", comemora. Autor de Fernando Pessoa: Uma quase autobiografia, uma das obras mais importantes sobre o português, José Paulo Cavalcanti Filho publicou pela Universidade Falada audiolivro distribuído em bibliotecas públicas e instituições para deficientes visuais de todo o país.

Na Agenda

Caminho da pedra

Exposição com 20 esculturas de Demétrio Albuquerque tem mediadores capacitados para audiodescrição e fica em cartaz de quarta a sexta, das 12h às 20h, e aos sábados e domingos, das 14h às 20h, na Galeria Janete Costa (Parque Dona Lindu). "É incrível acompanhar a visita, a forma do toque, de ler a obra, muito sutil e intensa. É muito importante não deixar de ‘fora’ uma parte da população", defende a produtora Adah Lisboa.

Cultura limitada: Angélica Gouveia

Foto: Angelica Gouveia/Divulgacao.

De Íris ao arco-íris
Crianças surdas eram público-alvo desde a concepção da peça sobre uma lagarta cujo sonho é chegar ao reino encantado. Com técnicas de teatro de objetos, bonecos e sombras, será encenada com audiodescrição e intérprete de Libras no dia 23 de setembro, no festival Aldeia Yapoatan, às 13h30 e 15h30, após passar por Ceará, Santa Catarina, Mato Grosso e Acre.

Animage

Em vez da oficina de stop motion para surdos, como no ano passado, o festival de animação, previsto para outubro, vai promover um curso para crianças autistas, além de sessões com audiodescrição.

Multiplicando olhares

Ensaio aberto do espetáculo Leve, no dia 3 de outubro, às 15h, na programação da oficina Multiplicando olhares sobre o corpo que dança, ministrada por Maria Agrelli, Renata Muniz e Silvinha Góes para crianças e adolescentes com e sem deficiência. Haverá outros três encontros, ainda sem data definida, no Coletivo Lugar Comum (Rua Capitão Lima, 210, Santo Amaro).

I Encontro de Educação Musical e Inclusão

Oficinas, palestras, mesas-redondas e apresentações musicais acessíveis, no Departamento de Música da UFPE, entre os dias 16 e 20 de novembro. Promovido pelo Laboratório de Educação Musical Especial e Inclusiva.

Fonte: Diário de Pernambuco

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