Foliões cegos comentam audiodescrição na Sapucaí 2016

Nos quatro dias de desfiles no Sambódromo, pelos grupos de Acesso e Especial, cerca de 50 foliões cegos ouviram as chamadas audiodescrições de quatro atores, atentos a cada passo de todas as escolas, alternando-se sempre de dois em dois em uma cabine diminuta quase dentro da avenida. Os foliões não pagaram ingresso, pois ficaram no Setor 13, em uma enorme frisa para 300 pessoas destinada pela secretaria municipal da Pessoa com Deficiência a quem possui necessidades especiais.

Foliões cegos: descrição da foto no final do post

PraCegoVer: descrição da foto no final do post.

"É uma roupa da nobreza, uma fantasia dourada, cor que vai se repetindo em todo o desfile da Beija-flor", descreve a voz masculina nos ouvidos dos foliões cegos, entre eles o psicólogo Helio Orrico. A narração passeia por enredo, alegorias e alguns detalhes do desfile, como o fato de a escola de Nilópolis ter mais alas, porém com menos componentes. Por isso as alas “passam mais rapidamente, mas mantêm a harmonia, todos cantando alto, continua a mesma voz. Com fones de ouvido a tiracolo, quinze foliões cegos absorvem atentamente as palavras. Um sentido vai estimulando o outro e, como se uma janela se abrisse, a luz da imaginação acendesse, Orrico sente o que não sentia, vê o que não via. "É fascinante", afirma, com emoção, o morador de Caxias, 55 anos. "No mestrado, minha dissertação foi sobre cognição e linguagens. O carnaval tem linguagens que, sem a visão, eu não conseguia compreender. As coisas que ouvi me fizeram ver", diz o hoje doutor.

Quase em frente à linha de chegada, a torcida mais especial da Sapucaí, composta por foliões cegos e com outros tipos de deficiências, era saudada com alegria pelos foliões que passavam do lado esquerdo da passarela. O carinho vem de todos os lados. Vestindo uma camisa com a pergunta “Posso ajudar?”, a doce Rosi Monteiro, de 20 e poucos anos, corria de um lado para o outro após cada desfile trazendo foliões fantasiados. Após o desfile da Beija-flor, trouxe Osmar, ritmista da escola que chegou com o tamborim e uma latinha de cerveja na mão, ensopado de suor. Ele ficou sorrindo, sem reação, um pouco sem jeito, enquanto três pessoas tocavam sua fantasia. "Quero trazer um casal de mestre-sala e porta-bandeira, mas está difícil", lamenta Rosi.

Sem enxergar há 13 anos por causa de um glaucoma, Francisco das Chagas Silva Santos, 65 anos, era um dos foliões cegos presentes na roda, tocando o tamborim e a fantasia do ritimista. "Ver é relativo", diz Francisco. "Estou vendo tudo agora, por isso minha felicidade", diz, erguendo os braços para o céu.

foto da arquibancada, dois foliões cegos acompanham as narrações usando fones de ouvido

PraCegoVer: foto da arquibancada, dois foliões cegos acompanham as narrações usando fones de ouvido.

Há também os momentos de tensão, como em problemas de evolução das escolas. Com a audiodescrição, os foliões cegos se afligem. "O carro ainda não conseguiu fazer a curva e deixar a Praça da Apoteose. Agora a ala está passando ao lado da alegoria", avisa o ator Rodrigo De Bonis, que fez sucesso nos blocos de rua com a fantasia do John Travolta confuso. Em poucos minutos, o carro alegórico saiu da avenida, e todos comemoram aliviados.

"A gente tenta transmitir para os foliões cegos que estão acompanhando o desfile ouvindo nossa narração as sensações do desfile, o tamanho e impacto dos carros, se as pessoas estão fantasiadas ou seminuas", explica a atriz e cantora Maria Thalita de Paula, que já trabalhou com audiodescrição em diversos tipos de evento, de congressos de classe a peças teatrais.

Durante as narrações, os foliões cegos fazem grandes descobertas, embora possam parecer pequenas para quem sempre enxergou. Alguns simplesmente não sabiam que havia uma escultura feita por Oscar Niemeyer no fim da passarela do samba, porque ninguém contou. Outro dia, o psicólogo Orrico ouviu que a escultura era a forma da bunda de uma passista. "É uma versão erótica, mas hoje ouvi uma nova: que a escultura se assemelha com um pássaro de asas abertas, formando três pontos de apoio no chão", afirma. "Vi pela primeira vez um símbolo de liberdade".

Entre os foliões cegos, Márcia Benevides, 47 anos, também teve uma nova visão. Tem certeza de que viu a campeã de 2016 na avenida. Portelense de coração, ela acredita no título mais do que nunca. "Eu vi, foi lindo. Vai dar Portela".

PraCegoVer: no primeiro plano, à direita, os audiodescritores Maria Thalita e Rodrigo de Bonis. Ela fala ao microfone, com um enfeite de flor com lantejoulas coloridas e penacho verde nos cabelos. Do canto do olho saem duas listras de brilhos dourados e cor de rosa, e ela usa um brinco de pingente longo com um triângulo bege na ponta. Rodrigo está à direita dela, mais atrás na foto. Eles estão na cabine, que fica aproximadamente a dois metros da avenida. Atrás do vidro da cabine, um grande carro alegórico multicolorido e alguns bombeiros de costas, encostados na grade de proteção da avenida. Sabemos que o ponto é próximo à Praça da Apoteose porque no vidro da cabine há um reflexo da grande escultura de Niemeyer que marca o final da avenida, nesse momento colorida por luzes roxas. Crédito da foto: Lavoro Produções, empresa responsável pela audiodescrição na Sapucaí 2016.

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