Auto da Paixão: depoimento de quem assistiu com audiodescrição

Neste ano o Auto da Paixão ampliou ainda mais o seu projeto de inclusão, proporcionando às pessoas com deficiência visual o recurso de audiodescrição, uma narrativa detalhada sobre o espetáculo. O recurso representa uma oportunidade para as pessoas que não enxergam com os olhos, mas acompanham com outros sentidos a história de Cristo na terra.

Auto da Paixão 2016

Antes do início da encenação de Auto da Paixão , pessoas com deficiência visual puderam tocar a coroa de espinhos utilizada por Jesus Cristo, interpretado pelo ator Henri Castelli, diferentes tipos de vestimentas, entre elas a dos sacerdotes, dos judeus, e também de objetos de cena, como as espadas utilizadas pelos soldados e o cálice da Santa Ceia.

Todos os cenários que formam uma estrutura de cerca de 120 metros de comprimento, também foram narrados antes do início do espetáculo. O Monte das Oliveiras, o templo dos sacerdotes, a mesa da Santa Ceia, o calvário, os salões de Herodes, o barco e outros cenários importantes na trama foram minunciosamente descritos para que as pessoas pudessem desenhar em sua imaginação a história de amor de Cristo.

Para que a narração acontecesse, cada um dos deficientes visuais recebeu da organização um equipamento de audiodescrição composto por um aparelho conectado a um fone de ouvido. Da cabine, um dos colaboradores do Grupo Cena Onze transmitia as informações que chegavam ao grupo.

Para o presidente do Conselho dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Juarez Albues, a iniciativa vai muito além de uma prática de inclusão do Governo do Estado. "É uma forma de interagir e fazer parte deste contexto. Por mais que o Auto da Paixão seja uma história contada há muitos anos, ter uma versão que contemple a pessoa com deficiência visual é um momento muito importante para nós", destacou.

O desânimo de estar em um evento e entender muito pouco do que está acontecendo não incomoda apenas Juarez, mas também Antônio Alves de Arruda, que tem apenas parte da visão. "A audiodescrição do Auto da Paixão proporcionou um sentimento de liberdade. “Mas é uma liberdade de poder entender melhor, assim como as pessoas ditas normais. Às vezes a gente sai de um evento com a sensação de que esteve lá, mas que não participou de nada. Então isso nos ajuda a ser parte da sociedade".

Foi com o objetivo de ser um modelo de evento totalmente inclusivo, que a ideia de utilizar o recurso de audiodescrição surgiu, como o próprio secretário de Estado de Trabalho e Assistência Social, Valdiney de Arruda, lembrou. Presente na penúltima noite da encenação do Auto da Paixão, o secretário comemorou o projeto de inclusão, que resultou no êxito do espetáculo. "O desejo do Governo de possibilitar um evento inclusivo que desse oportunidade ao idoso, ao deficiente auditivo, ao deficiente visual, além de gerar trabalho e renda aos recuperandos, haitianos, indígenas e outras pessoas em situação de vulnerabilidade, demonstram que tivemos êxito e que o Auto da Paixão de Cristo 2016 é um sucesso".

Já para a idealizadora, primeira-dama do Estado e coordenadora do Núcleo de Ações Voluntárias, Samira Martins, os números dizem por si só. "Já ultrapassamos a marca de 50 mil pessoas que passaram pelo Auto da Paixão. Somente no primeiro dia de evento, em plena terça-feira, recebemos sete mil pessoas. Não tenho dúvidas de que este caminha para ser o maior do país. E o mais importante é que é um evento totalmente inclusivo, a razão de nossa felicidade", ressaltou Samira.

Foram investidos no Auto da Paixão R$ 1,8 milhão, sendo grande parte desse valor utilizado no pagamento, vale refeição e transporte dos 950 prestadores de serviço que trabalharam direta e indiretamente durante 210 dias para que o espetáculo fosse montado. Foram gerados 150 empregos diretos e 550 indiretos, além de 250 atores profissionais e amadores que ensaiaram durante 8 semanas para a encenação. O valor foi menos que a metade do utilizado no evento em 2014, quando aproximadamente R$ 5 milhões foram gastos na ocasião.

Henri Casteli, ator que interpretou o papel principal, aprovou a iniciativa destacando que já participou de cinco encenações do Auto da Paixão, mas que a união e inclusão em Cuiabá foram incomparáveis gerando um saldo extremamente positivo. "Já estive em cinco apresentações de Paixão de Cristo e esta foi a maior e melhor que eu já participei. Foi tudo muito especial, o figurino, o cenário, a inclusão social. Foram noites marcadas pela caridade, pelo amor. Essa foi uma das grandes emoções que vivi em minha carreira".

Inclusão social – Flávio Ferreira, diretor do grupo de teatro Cena Onze e responsável por selecionar o elenco, destacou que a inclusão social foi uma ideia coletiva e disse se sentir privilegiado por fazer parte do espetáculo realizado em parceria com o Governo do Estado. "Toda essa inclusão junto com atores profissionais foi um aprendizado para todos nós. Foi um sonho coletivo e ficamos emocionados, honrados. Foi algo inédito, uma experiência para que as pessoas viessem para cá e sentisse o que nós sonhamos. O número de pessoas que compareceram surpreendeu, nós que vivemos de aplauso, do reconhecimento do nosso trabalho isso é muito importante".

Entre esse público diferenciado estava o deficiente auditivo Márcio Santos, de 8 anos, que foi com a avó Maria José Santos pela primeira vez em um espetáculo. "Esse dia vai ficar marcado na vida dele para sempre. Pela primeira vez na vida ele foi a um teatro graças a intérprete de libras. Ele ficou muito feliz e eu espero que eventos com a participação de pessoas com deficiência aconteçam cada vez mais".

Uma das figurinistas do Auto da Paixão , a reeducanda, A.L.C, agradeceu a oportunidade de mostrar o que foi aprendido dentro da unidade prisional, com um curso de costura que a possibilitou fazer parte da equipe que montou os figurinos para o espetáculo "É uma emoção mostrar meu trabalho. Agradeço o voto de confiança que nos foi dado. Vou continuar fazendo cursos para aprender e me capacitar. Estamos mostrando que podemos nos relacionar bem com as pessoas. Muitos estão abraçando a oportunidade que nos foi dada, dando valor nisso".

Atores natos, os índios xavantes pretendem implantar um projeto de artes cênicas na aldeia de Barra do Garças, por meio de um trabalho com o Cena Onze, de acordo com Xisto, líder da aldeia Nova Esperança. "Nesse mundo globalizado tem que ser trabalhada essa formação filosófica, psicológica. A arte do povo indígena é passada de geração para geração e estamos conversando com o Flávio a importância de levar esse trabalho de formação de pessoas para a aldeia".

Fonte: Coletânea de Notícias

Mais sobre audiodescrição
A partir desta quarta-feira (16) começam as apresentações da 18ª Paixão de Cristo do Recife,
Quem passa pelo estádio Aldeião, em Gravataí (RS), aos finais de semana, já pode notar
São Paulo completa 460 anos amanhã e por toda a Cidade haverá atividades e celebrações.


Mais sobre audiodescrição
A partir desta quarta-feira (16) começam as apresentações da 18ª Paixão de Cristo do Recife,
Quem passa pelo estádio Aldeião, em Gravataí (RS), aos finais de semana, já pode notar
São Paulo completa 460 anos amanhã e por toda a Cidade haverá atividades e celebrações.