Linguagem audiovisual: diferenças para cinema e teatro

Falar sobre linguagem não significa abordar um tema de difícil compreensão, distante do usual e do cotidiano de qualquer um. Tampouco se trata de algo reservado apenas aos especialistas, teóricos e estudiosos do assunto. Ao contrário: o ser humano se expressa e se comunica naturalmente desde o nascimento (ou mesmo desde a gestação), independentemente do domínio das faculdades de uma fala, idioma ou cultura, e o faz por meio da linguagem.

linguagem audiovisual

PraCegoVer: plateia vista de costas em uma sala de cinema

Seja falando, gesticulando, escrevendo, chorando, sorrindo ou produzindo obras de arte, o Homem faz uso da linguagem o tempo todo para se comunicar, conscientemente ou não, já que a linguagem faz parte de sua própria natureza, como, aliás, creio, faz parte de toda a Natureza.

Quando um cachorro, por exemplo, abana o rabo, sabemos que está demonstrando alegria, da mesma forma que, dependendo do tipo e da energia de um latido, sabemos se está realmente bravo ou não. Um bebê chora muito, mas qualquer boa observação revelará a diferença entre um “choro de fome” e um “choro de dor de barriga”.

Linguagem e mensagem

Pois bem, se relacionarmos os sentimentos dos cachorros, como a alegria e a raiva, com seus gestos , como abanar o rabo ou latir, o que teremos será uma relação entre mensagem e linguagem. Ocorre o mesmo com os bebês: as mensagens são "estou com fome" ou "estou com dor de barriga" e a linguagem por meio da qual ele comunica essas mensagens está nos diferentes tipos de choro, ou seja, em suas ações. A linguagem, portanto, serve justamente para comunicar mensagens.

Entretanto, uma ressalva importante: apesar de utilizarmos linguagem para nos comunicar desde sempre, não nascemos com o domínio de toda a sua complexidade e apenas com o tempo e a aprendizagem é que, aos poucos, seja por tentativa e erro ou por ensinamentos, passamos a dominar suas partes mais específicas – e é justamente por isso que, depois de certa idade, não perdemos mais o nosso precioso tempo nos esgoelando em choro para comunicar o fato de estarmos com fome. Simplesmente o dizemos por meio da linguagem da fala apreendida.

Mas há outro detalhe óbvio, porém, importante: saber falar que está com fome apenas por meio da língua portuguesa, por exemplo, não nos permite dizer que estamos com fome a um chinês que não entenda uma palavra sequer de nossa língua – neste caso, ou dominamos o Mandarim ou encontramos outra forma de linguagem que transmita a mensagem com a coerência necessária para que o chinês nos compreenda (uma mímica, por exemplo). Do contrário, morreremos de fome.

Portanto: assim como, para falar e ser compreendido através de uma língua estrangeira, é fundamental conhecê-la, nada mais importante do que aprender as particularidades, características, princípios e a lógica da linguagem audiovisual quando se quer expressar e comunicar justamente através dela. Não se faz obra audiovisual sem linguagem audiovisual.

Palco VERSUS tela

Sem mais rodeios, vamos aos exemplos simples que nos ajudam a compreender facilmente os fatos: imagine a ideia fictícia de uma bomba-relógio em contagem regressiva presa debaixo da cama de um personagem; agora, de posse desta situação (criada apenas em nossa imaginação), pensemos em como aplicá-la a duas linguagens diferentes, a do cinema e a do teatro.

No cinema, para mostrarmos ao espectador que a bomba está debaixo da cama, basta um enquadramento de câmera próxima ao objeto, um plano detalhe, para apresentá-la em tamanho imenso na tela: assim, sem se levantar da poltrona, o espectador poderá se “sentir” dentro daquele quarto, agachado ao lado da cama e vendo a bomba de perto; já no teatro, isso precisaria ser representado, inevitavelmente, de outra maneira, talvez com um barulho de “tic tac” seguido por um grito espantado e espalhafatoso do personagem anunciando a bomba com palavras oralizadas. Algo como: "Meu Deus, há uma bomba debaixo da cama!", já que, do contrário, como espectadores de teatro, sentados em poltronas diante de um palco distante e não de uma tela enorme, vendo a ação acontecer de longe e inteira, sem a possibilidade dos planos detalhes do cinema, não conseguiríamos enxergar a bomba debaixo da cama (que, por sua vez, ocuparia apenas um pequeno espaço do arco proscênio).

Ainda que em um ato de boa rebeldia construíssemos no teatro, por exemplo, a parte de baixo da cama em escala ampliada (com a bomba, também enorme, presa a ela) e a colocássemos no centro do palco para que o público pudesse vê-la como se estivesse “de perto” – ou se, de outro modo, levássemos cada espectador ao palco, para que pudesse visualizar a bomba em tamanho real –, essas práticas não possibilitariam, de fato, a mesma experiência visual e estética que a do cinema. No primeiro caso, o espectador veria o objeto real à sua frente, grande ou não; no segundo, apenas a imagem virtual dele projetada na tela.

Ou seja: produtos de comunicação diferentes têm linguagens diferentes e exigem princípios e práticas diferentes. Daí a importância de aprendê-las para poder realizá-las corretamente.

Forma e conteúdo

Outro exemplo que nos ajuda a compreender como é possível prejudicar uma mensagem, mesmo sem querer, pelo simples fato de não sabermos lidar com as ferramentas específicas de determinada linguagem: no cinema, diante de um close-up (plano de câmera que limita o enquadramento a apenas um rosto próximo e às expressões faciais), se o personagem se assustar com algo e o ator interpretar este susto exageradamente, com “caras e bocas” muito espalhafatosas, certamente transmitirá uma imagem caricata do personagem, direcionando a atmosfera da ação dramática mais para o pastelão, para a comédia ou para o humor do que para o medo ou o suspense.

Por outro lado, se no teatro tal interpretação de susto for contida, limitando-se apenas à sutileza das expressões faciais, certamente ninguém da plateia o perceberá, já que a longa distância física entre o espectador e a ação que acontece no palco será uma barreira intransponível para a nítida visualização de tais nuances e pequenos detalhes do rosto do personagem. Portanto, se quisermos criar, no cinema, uma atmosfera de medo, por exemplo, com o susto de um personagem, sem que fique cômico, precisamos compreender como funciona a lógica de sua linguagem, tanto do ponto de vista de quem cria (o diretor, o ator etc.) quanto de quem interpreta (o espectador) a imagem ou a ação. Do contrário, sem utilizá-las corretamente, provocaremos risadas quando pretendemos provocar medo (ou vice-versa).

Outro detalhe importante: assim como um texto é escrito com lápis, caneta ou teclado, e assim como um quadro é pintado, em princípio, com pincel e tintas, cada uma destas artes exige práticas e conhecimentos específicos de suas ferramentas particulares para que sejam executadas. Um filme se escreve (ou se pinta), principalmente, com uma câmera (ainda que simulada por um software 3D) e tudo aquilo que se pode colocar, conjugar e construir diante dela. E isso, por si, não é pouco – não é uma tarefa simples, possível de ser reduzida a mínimas possibilidades, já que envolve uma complexidade de fatores técnicos, conceituais e estéticos, como tema, premissa, mensagem, atmosfera, sensação emocional, enquadramento, luz, composição, cor, interpretação (ou acting , no caso da animação), som, montagem etc., impossíveis de serem realizadas em uma simples brincadeira de fazer cinema.

Voltando àquela ideia inicial: se não soubermos falar Inglês não conseguiremos nos comunicar adequadamente em Inglês. E para as linguagens das artes não será diferente.

Subversão

Eis porque não basta pensarmos de maneira audiovisual para podermos nos comunicar por meio da linguagem audiovisual: é necessário, para isto, que conheçamos a sua “língua” e “gramática” próprias. Uma imagem ou ação imaginada não é um filme, e sim, apenas uma imagem ou ação imaginada. Podemos (e devemos) subverter a linguagem para criar novas possibilidades artísticas, mas não há como subverter uma linguagem que não conhecemos e dominamos.

Os títulos de “artista experimental” ou “artista rebelde” não escondem um possível desconhecimento técnico e conceitual e nem tampouco a falta de qualificação para comunicar algo por meio de uma linguagem específica (como exemplo, vide o famoso “portunhol”, que facilmente identifica os brasileiros que não dominam a língua espanhola).

Do mesmo modo, o profundo conhecimento e a dedicação extrema às especificidades de uma linguagem não produz artistas necessariamente “quadrados”, “caretas” ou “limitados”. Ao contrário, o verdadeiro artista é aquele que, experimental ou não, rebelde ou não, sabe se comunicar (e subverter) por meio da linguagem escolhida justamente porque a conhece muito bem. Linguagem não é um grupo de regras arcaicas e sem importância, mas sim um conjunto de códigos de um canal de comunicação específico. A inventividade, a livre criação e até a genialidade dependem de uma linguagem. É inevitável. E que não se confundam as coisas: o que de fato diferencia os artistas de mesma linguagem é o chamado estilo, uma característica (aí, sim) subjetiva e individual, mas, ainda assim, fadada à manipulação de alguma linguagem. Assim é – e não há como ser diferente. Este é o fato.

por Diego Gozze

Fonte: Revista Zoom Magazine

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