Como se produz audiodescrição nas emissoras de televisão

Para responder a pergunta como se produz audiodescrição na televisão, te convido a percorrer uma trajetória entre “uma escolha” até “outra escolha”.

Flávia Machado explica como se produz audiodescrição para as emissoras de TV

Neste artigo quero compartilhar com vocês as experiências que tenho tido na TV Aparecida e também observado, pesquisado e analisado no mercado de acessibilidade audiovisual.

Antes de começar a falar especificamente do tema, quero apresentar a TV Aparecida. Somos uma emissora católica com programas religiosos e não religiosos. Segundo o IBOPE, somos a 7ª emissora com maior audiência na TV aberta e a 19ª entre todos os canais (considerando TV aberta e fechada). Temos um setor de Acessibilidade, o qual foi implementado por mim em 2011 e desde então eu o coordeno. A grande novidade de 2017 é a exibição da novela A Padroeira, que foi produzida pela Globo em 2002. Foi a primeira vez que a Globo cedeu um material para outra emissora aberta. E é nossa primeira novela com audiodescrição (e a deles também).

Voltando as escolhas que comentei, a primeira é da emissora de TV e e a segunda é do(a) telespectador(a).

Qual material vai ter audiodescrição?

Entre os critérios para selecionar o material estão: audiência, deadline, periodicidade de exibição, relevância da audiodescrição para a compreensão do material, legislação (LBI e leis de incentivo), promoção de uma marca ou produto.

Pode-se notar a diversidade de materiais oferecidos pelas emissoras brasileiras como: filmes, documentários, séries, novelas, desenhos animados, musicais, entrevistas, artesanato, viagens, peças publicitárias, propaganda político-partidária.

Onde produzir?

O material pode já chegar na emissora com a audiodescrição, que por enquanto é o caso de peças publicitárias e propagandas político-partidárias. Para esses casos, a audiodescrição vem embutida no material entregue à emissora seguindo os padrões de exibição da emissora. O que pode variar entre cada emissora de TV. A menção à AD já está sendo incluída nos documentos de diretrizes comerciais distribuídos às agências de publicidade.

Ou quando o material não tem AD, ela pode ser produzida por uma equipe interna da emissora ou por um serviço terceirizado.

Como produzir?

Lembrando que estou abordando aqui as etapas para a produção de audiodescrição gravada, pois é o tipo de audiodescrição mais oferecido na TV. Mas também temos audiodescrição ao vivo.

Na TV Aparecida, fazemos uma vez ao ano durante a Missa da Acessibilidade que é realizada em setembro. Essa proposta começou em 2013 quando fizemos a primeira audiodescrição ao vivo da TV brasileira com a parceria da Lívia Motta e da Fátima Angelo da Ver com Palavras.

Então, para a produção de audiodescrição gravada, seguimos as etapas de:

. Roteirização: para otimizar essa etapa podemos usar materiais de apoio (pesquisas de termos, objetos de época, vestimentas, lugares, etc); textos de legendas (facilita consultas de personagens, pronúncias de palavras); listas para padronização. O tempo para a produção do roteiro varia de acordo com o tipo de material. Já tivemos casos de produzirmos mais de 2 capítulos em 6 horas, mas também filmes que demoraram mais de 18 horas.

. Gravação: cabine acústica para ter qualidade do áudio gravado. Às vezes antes temos que fazer a consulta de pronúncias de palavras incomuns ou estrangeiras. E entonação específica para o tipo de material. No caso com os filmes dos Trapalhões além do roteiro trazer palavras mais despojadas, a narração também estava mais alegre, divertida, condizendo assim com o tipo de material audiodescrito.

. Mixagem: editor de áudio ou de vídeo faz a mixagem para gerar uma faixa de audiodescrição clara para quem irá ouvi-la. Uma mixagem ruim pode causar incompreensão da audiodescrição e do áudio original do filme.

. Revisão: conferência do material de acordo com o roteiro e a mixagem feita. Nessa etapa, além de correções e regravações, podem ser feitos ajustes no roteiro.

. Finalização do material.

Observação: Lembrando que um consultor de AD pode atuar em qualquer um desses momentos.

Como arquivar?

Os modos de arquivamento são importantes para, em primeiro lugar, ter soluções rápidas para imprevistos (arquivo corrompido, por exemplo) mas também para: diminuir bytes (ou seja R$), reedição, versões diferentes para o mesmo produto, redistribuição (aplicativos, VODs, festivais de cinema, etc), migração de tecnologias e para fornecimento de metadados.

Como transmitir?

. TV aberta digital: a emissora transmite a audiodescrição pelos canais de áudio secundários, geralmente 2 ou 3. Infelizmente, a divulgação da TV Digital no Brasil com essa fase do desligamento do sinal analógico que o país vive não informa que com a TVD a AD estará disponível para todos os televisores.

. TV por assinatura: por enquanto, as operadoras precisam somente retransmitir o canal da audiodescrição das emissoras que disponibilizam, mas há uma boa perspectiva para a ampliação da oferta da audiodescrição na TV por assinatura tendo em vista a publicação da agenda regulatória da ANCINE para 2017-2018 que traz a regulamentação dos serviços de acessibilidade para a TV paga.

. Novas plataformas digitais: streaming, VOD, OTT e outros tipos de distribuição via internet que estão crescendo no mercado audiovisual.

Divulgação da oferta de AD na TV

Antes de falar das duas últimas perguntas que estão relacionadas entre si, quero abordar um ponto importante para introduzir as duas últimas perguntas: a divulgação da oferta da audiodescrição na TV.

A maioria das emissoras sinalizam a oferta de audiodescrição com um logo no início de cada bloco do programa. O SBT fez uma vinheta anunciando a audiodescrição, lá em 2011. A Globo foi a primeira a usar logo com sinal sonoro. E agora a TV Aparecida também tem.

Outras formas de divulgação na programação televisiva são através de vídeos institucionais, que também já tivemos nos breaks da TV Aparecida, e também os EPGs que são os guias de programação que podem ser consultados pelo controle remoto através da TV digital ou da TV por assinatura. Infelizmente ainda não temos equipamentos que permitam a leitura sintetizada do guia de programação como já existe na Inglaterra há alguns anos (talk-box). E os operadores de TV também não sinalizam sonoramente os programas com audiodescrição nos seus guias de programação, como a Sky britânica já faz. O que estamos começando a ter no Brasil são aparelhos de TV com sintetizador de voz para ler menus de configurações. O que já é um começo.

Também temos as grades de programação disponibilizadas nos sites das emissoras. Poucas têm sinalização, página dedicada ou postagens informando os programas que têm audiodescrição. A TV Aparecida tem o A12.com/Acessibilidade e também posts e matérias sobre como ativar a audiodescrição.

Como habilitar a audiodescrição na TV?

Para habilitar a audiodescrição no televisor, o telespectador precisa escolher a opção do canal de áudio da audiodescrição através do controle remoto ou através do menu de configuração de áudio do televisor ou do conversor digital. Vale lembrar que ainda não temos no mercado um controle remoto com a tecla audiodescrição dedicada.

Qual programa assistir?

A escolha é do telespectador.

Obs: Este artigo é baseado na apresentação que fiz no 3º Encontro Internacional de Audiodescrição no dia 27 de abril em Recife (PE).

* Flávia Machado é Supervisora de Exibição e coordenadora do Departamento de Acessibilidade e Multimídia da TV Aparecida.

Para saber mais sobre como se produz audiodescrição na televisão, assista o vídeo abaixo:

Mais esclarecimentos sobre como trabalha o Departamento de Acessibilidade da TV Aparecida:

Veja a programação da TV Aparecida com audiodescrição

Fonte: perfil de Flávia Machado no LinkedIn



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