Quando Papai Noel se Vestiu de Audiodescritor

Jamais esquecerei opresente que ganhei do Papai Noel em 2016. Era 25 de dezembro, à noite, e depois de me informar com os colegas de um grupo de cegos do qual participo no WhatsApp, pedi a minha irmã que encontrasse a opção de audiodescrição na nossa TV.

Papai Noel sentado em uma poltrona, segurando um controle remoto, em frente a uma televisão

PraCegoVer: Papai Noel sentado em uma poltrona segurando um controle remoto. Ele está em frente a uma televisão.

Passava o Domingo Maior. A globo exibia um filme que eu jamais assistiria: o nome era algo como "O Cavaleiro Mascarado" e, naquele momento, estava há tanto tempo em uma cena sem fala que, ao normal, eu já teria dormido tentando assistir. Quando ela por fim encontrou a opção correta e o narrador de audiodescrição começou a falar, eu não acreditei. Se você acredita em milagres, pois bem, naquele momento eu estava enxergando. Então tinha um trem, e uns caras a cavalo perseguindo ou sendo perseguidos (peguei o negócio no final, não deu para entender o enredo), e um cara dava um tiro (acho), e o outro cara quase caía do trem e…

No dia seguinte passou a adaptação de "A Bela e a Fera" na Tela Quente. Claro que eu assisti. Naqueles dias eu estava assistindo até sessão da tarde, meus amigos. Pois bem, tem uma cena em "A Bela e a Fera" onde os dois dançam juntos uma música lenta, climinha de filme de princesa. E eu fiquei emocionada, porque o narrador descreveu os passos e era tão bonito…

Nos três dias seguintes passou "A Terra do Nunca" em uma sessão de cinema especial.

Essa foi a sequência dos primeiros filmes com audiodescrição que eu assisti na TV. E sei, porque já se passou um ano e lembro como se fosse ontem, que jamais a esquecerei. Porque a audiodescrição é como enxergar. Talvez seja até melhor, porque ainda é sobre o modo que eu internalizo o que é visto através da narração e não da imagem propriamente dita. Ainda tem um espacinho para a imaginação ali.

A audiodescrição não vai salvar o mundo, mas vai deixá-lo mais bonito; vai nos colocar lado a lado nas salas de cinema, no teatro, nos museus, nas apresentações de dança, nas exposições de arte e em quantos lugares mais, que ainda não pudemos chegar; a audiodescrição me faz ter vontade de viver mais, de estar nesses lugares; me faz pensar que o lazer também é para mim, que a cultura também é para mim. Feche os olhos e assista um filme inteirinho. Você não vai conseguir; vai querer entender o que está acontecendo e abri-los de novo.

Há um tempo, não muito tempo atrás, eu afirmava com todas as letras: "não gosto de filmes. Não gosto de dança. Não gosto de museu. É tudo tão chato!" A arte não é chata, a arte é linda, é maravilhosa, é mágica. Mas muitas vezes é visual. Não é à toa que os próprios cursos por aí se denominam "artes visuais". Mas não é porque o mundo é assim tão visual que ele precisa excluir os que não veem. Inclusão não é sobre criar coisas para que as pessoas cegas tenham o que fazer; inclusão é abrir as portas do visual e deixar que a gente entre.

Gratidão a quem abriu a primeira porta e nos convidou a entrar; gratidão a quem luta bravamente para fazer audiodescrição no Brasil. Gratidão porque, no Natal do ano passado, Papai Noel fez uma criança crescida muito feliz. E, depois que ela pegou seu presente debaixo da árvore, o mundo nunca mais voltou a ser tão sem graça.

Fonte: Timeline de Daniela Cardoso de Oliveira

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