Encantos e Desencantos no Reino da Audiodescrição

Pelo segundo ano consecutivo, o espetáculo de Natal apresentado no Palácio Avenida, em Curitiba, contou com o recurso de audiodescrição. O empreendimento a cargo do Instituto Sensorial deu asas ao “espírito livre” sob a égide de uma presumível inovação pela participação inusitada de uma pessoa cega na cabine como locutora em parceria com o audiodescritor. A novidade chamou a atenção do público, ganhou publicidade e provocou o posicionamento crítico dos profissionais que se distinguem pela expertise nesta área do conhecimento. Dentre estes profissionais, destacamos a nossa atuação como consultores em audiodescrição, atividade desenvolvida por pessoas com deficiência visual (cegueira ou baixa visão) devidamente qualificadas para realizar a avaliação técnica da qualidade, eficácia, pertinência e funcionalidade do produto audiodescrito.

Reino da Audiodescrição

Nesta perspectiva, manifestamos o posicionamento do Coletivo de Consultores em Audiodescriçãoacerca da experiência de audiodescrição do espetáculo “Palácio Encantado” em Curitiba.

Ao que tudo indica, trata-se de uma experiência bem-sucedida relativamente ao equipamento utilizado para a recepção da audiodescrição, ao deslocamento e à acolhida dos espectadores com deficiência. Cabe ressaltar, no entanto, os aspectos problemáticos desta experiência que evidenciam, entre outros fatores, o desconhecimento do papel desempenhado pelos consultores em audiodescrição:

a) O protagonismo das pessoas com deficiência visual não deve ser concebido, estimulado ou interpretado como uma mera exposição midiática, aparentemente precipitada ou inconsequente, de um talento ou de uma atuação ocasional inusitada;
b) A performance de uma pessoa com deficiência visual, como locutora, na cabine de audiodescrição deste espetáculo, ao lado do audiodescritor, independentemente do planejamento eficiente, da dedicação, esmero e afinco de todos os envolvidos nesta empreitada, não deve ser confundida com a atuação da consultoria e não quer dizer que a narradora seja audiodescritora;
c) A narração deste espetáculo reflete uma prática semelhante à da audiodescrição gravada em eventos ao vivo, experiência contestada em manifesto público do coletivo de consultores em audiodescrição.
d) A inovação, subjacente ao mote de argumentação em defesa da experiência do Palácio Avenida, em Curitiba, , é inconsistente posto que o ideal de inovação pressupõe conhecimentos prévios e um acúmulo do ponto de vista teórico, técnico e prático, além da avaliação qualificada de quem tem expertise na área, em contraposição à experimentação de alto risco em eventos desta magnitude;
e) Consideremos, ainda, a imprecisão, o desencontro de informações veiculadas nas redes sociais e também em grupos do WhatsApp quanto à formação dos responsáveis pela produção da audiodescrição e aos aspectos relacionados à atividade de consultoria em audiodescrição, que demonstram o diletantismo e a espetacularização desta experiência.

Coletivo de Consultores em Audiodescrição
Coordenação: Elizabet Sá e Felipe Monteiro
Dezembro de 2017

Nota do Blog: assista a reportagem sobre o evento.

Mais sobre audiodescrição
Nós, pessoas com deficiência e representantes das entidades da sociedade civil que atuam na defesa
Carta Aberta em Defesa da Audiodescrição CONSIDERANDO que a Constituição de 1988 estabeleceu a obrigação
Nós, os participantes do foro regional América Acessível: Informação e Comunicação para Todos, realizado em


Mais sobre audiodescrição
Nós, pessoas com deficiência e representantes das entidades da sociedade civil que atuam na defesa
Carta Aberta em Defesa da Audiodescrição CONSIDERANDO que a Constituição de 1988 estabeleceu a obrigação
Nós, os participantes do foro regional América Acessível: Informação e Comunicação para Todos, realizado em