Saga da audiodescrição no cinema

O cinema caiu no gosto do brasileiro. Em 2017, 181 milhões de pessoas geraram uma receita de R$ 2,7 bilhões para o setor. Embora cresça gradativamente nos últimos anos, parte do público local é privado do ‘show’. Em um imbróglio que se estende há anos, deficientes visuais e auditivos lutam pelo direito de frequentar as salas em pé de igualdade com as demais pessoas, mas parece que, assim como foi para a televisão, deficientes visuais agora terão de enfrentar a saga da audiodescrição no cinema.

saga da audiodescrição no cinema

A Lei nº 13.146/2015, sancionada pela então presidente Dilma Rousseff, visa promover a inclusão para deficientes nos âmbitos da saúde, educação, cultura, transporte, e outros. O artigo 42 obriga salas de cinema e teatro a dispor de recursos acessíveis para este público até, no máximo, o início de 2020. Em detrimento disso, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) instaurou uma Câmara Técnica sobre acessibilidade em 2016. Contudo, o impasse entre representantes do setor ainda afasta esse público das salas.

A Instrução Normativa nº 137, da Ancine, determina que 50% dos espaços de grupos exibidores com mais de 20 salas e 30% dos espaços de grupos com menos de 20 salas estejam adaptados até novembro deste ano. Além disso, todo o parque exibidor brasileiro deve oferecer recursos acessíveis até 16 de setembro de 2019. "Uma das metas da Ancine é universalizar o acesso às obras audiovisuais. Existe um período de adaptação e prazo a ser cumprido", afirma o chefe do escritório regional de São Paulo da entidade, Carlos Ramos.

Segundo o executivo, o Brasil pode encabeçar mudanças no cinema mundial, mas o alto investimento em legendagem descritiva, audiodescrição e Libras (Língua Brasileira de Sinais) é um obstáculo. "É um tema trabalhoso no que diz respeito à infraestrutura. Mas não dá para voltar atrás. A acessibilidade está em todo lugar hoje em dia", diz Ramos.

O prazo estipulado pela Ancine para a adaptação do mercado já é decorrente de uma prorrogação. Antes, a normativa nº 128 visava que as empresas do setor se adaptassem até novembro de 2017. As distribuidoras que investiram para isso, acabaram perdendo dinheiro, já que as salas ainda não estão adaptadas. "Os arquivos de acessibilidade têm um custo fixo de produção de R$ 15 mil por filme, o que encarece o orçamento de lançamento", diz a programadora da Vitrine Filmes, Leonor Araújo. A distribuidora está investindo em recursos de acessibilidade desde o início de 2017.

Para viabilizar isso, a Ancine criou um programa de apoio que destina R$ 15 mil às distribuidoras nacionais e internacionais em março de 2017. Com a última prorrogação, no entanto, este incentivo foi suspenso. Todas as obras que tenham fomento público, no entanto, devem dispor dos recursos. "No ano passado, não só a Vitrine como grande parte dos distribuidores começaram a se preocupar com isso. A câmara técnica tinha estabelecido o dia 15 de novembro para que esse incentivo chegasse ao consumidor final, e para que os cinemas pudessem testar as tecnologias", corroborou, ao DCI, o diretor comercial da ETC Filmes, Clayton Douglas.

Algumas empresas desenvolveram aplicativos móveis com conteúdos acessíveis, em que o deficiente visual, por exemplo, pode acessar a audiodescrição do filme. A Iguale, uma dessas empresas, criou o app MovieReading. "Ele tem o mesmo princípio do Shazam, mas não precisa de internet. O filme pode ser de cinema, TV ou no computador", argumenta o diretor da Iguale, Mauricio Santana.

Devido à “incerteza quanto aos parâmetros de interoperabilidade a serem adotados pelo Brasil”, a Digital Cinema Initiatives (DCI), entidade internacional responsável pela gestão do padrão tecnológico de cinema digital, interviu no processo, indicando que conteúdos acessíveis não devem ser disponibilizados por apps móveis, e sim estarem inseridos no DCP (Digital Cinema Package), formato atual de exibição das salas.

O mercado exibidor alega que os investimentos em dispositivos como tablets e fones de ouvido para esse público seja custoso. Em São Paulo, o Cinesesc realiza o ‘Festival Sesc Melhores Filmes’ com 84 sessões que dispõem de recursos para deficientes. "A legenda open caption e a audiodescrição não servem só para cegos. Elas também ajudam pessoas com baixa visão e rebaixamento cognitivo. Como São Paulo não é muito tranquila, temos monitores que vão até o metrô e voltam com os deficientes visuais. Se o Sesc fosse pensar em termos de custos realmente não seria barato", diz a gerente de programação do Cinesesc, Simone Yunes.

Em 2017, 181 milhões de pessoas foram ao cinema no País, e segundo a Ktalise, empresa de tecnologia especializada em acessibilidade, os deficientes auditivos e visuais somariam algo em torno de 4% no público que hoje frequenta os espaços. "Tentamos trabalhar em convencer a importância dessa iniciativa como perspectiva de mercado também para exibidores e distribuidores. Hoje se produz conteúdo acessível, por obrigatoriedade da lei, mas ele não chega aos cinemas, TVs ou DVD’s", lamenta o diretor da Ktalise, Luis Mauch.

Segundo o IBGE, o Brasil tem cerca de 6 milhões de deficientes visuais (500 mil deles cegos)."É raro encontrar uma pessoa cega ou surda em uma sala de cinema. Por que ele vai pagar para ir ao cinema, se só pode receber metade do produto? Eles não têm a dimensão desse público, pois não fomos o público que foi ao cinema nesses últimos anos", opina o integrante da secretaria de tecnologia e acesso à informação da Organização Nacional de Cegos do Brasil (ONCB), Paulo Romeu.

Nota do Blog: já tivemos a saga da audiodescrição na TV. Teremos agora a saga da audiodescrição no cinema?

Fonte: Diário do Comércio e Indústria

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