Quebra de contrato: vergonha no Festival CineSesc 2018

Assistir as produções cinematográficas está cada vez mais ao alcance das mãos. Eu mesmo tenho assistido muita coisa no meu próprio celular. Contudo, a sétima arte fica muito melhor numa telona em ampla sala de exibição, com poltronas confortáveis, som perfeito e boa companhia. Por isto, eu reservo o mês de abril para dedicar-me a ver o melhor do cinema do ano anterior. Talvez, você pergunte: Por que não no período do lançamento do filme? Por que só em abril e no ano seguinte? Explico. Sou pessoa com deficiência visual, literalmente cego, e para ver um filme só me é possível se a exibição contar com o recurso de audiodescrição.

Enquanto a Ancine (Agência Nacional de Cinema) não regulamenta a acessibilidade nas exibições cinematográficas, pessoas com deficiência visual e auditiva continuam tendo raras oportunidades para ir a um cinema e usufruir realmente do filme. Sendo assim, não perco um Festival Sesc Melhores Filmes que acontece anualmente no mês de abril no CineSesc na rua Augusta, 2075, São Paulo SP. Afinal, todos os filmes deste festival contam com os recursos de audiodescrição e Legendagem Open Caption.

Este ano listei 44 títulos entre os quais estavam: Extraordinário do diretor Stephen Chbosky, Fragmentado do diretor M. Night Shyamalan e Mulher-Maravilha, dirigido por Patty Jenkins.

Percebi logo no primeiro dia que algo não estava normal. Tivemos que assistir Joaquim do diretor Marcelo Gomes de dentro do bar pois na sala de exibição o sinal para os transmissores da audiodescrição não pegava, e se não bastasse o filme me pareceu fraco de fotografia e de figurino, culpa de um roteiro de AD pobre de informações.

Mas o pior estava por vir: No dia seguinte tivemos que abandonar a sessão inconformados pois Os audiodescritores não estavam lendo a legenda do filme húngaro Corpo e Alma do diretor Ildikó Enyedi e nenhum de nós deficientes visuais ali presente dominava a língua húngara.

Mas quem era responsável pela audiodescrição do festival? A empresa Bos que venceu a licitação com o menor preço e de quebra ofereceu a menor qualidade também. Conclusão, mostraram não estar capacitados para realizar o trabalho ao qual se propuseram e numa quebra de contrato sem precedentes abandonaram tudo no segundo dia do festival. E o que dizer do Sesc? A Bos já havia feito um serviço ruim em 2016 e na época quase 40 pessoas com deficiência visual reuniram-se com a gerência do CineSesc e deixaram registrado o descontentamento com o serviço prestado. O que nos parece agora é que o Sesc não levou em consideração nenhum desses seus clientes.

Tentando diminuir os estragos, a segunda colocada na licitação foi chamada para fazer em tempo record a audiodescrição do restante do festival, mas filmes como Extraordinário, Fragmentado, e Mulher-Maravilha, que serão exibidos no festival, não serão audiodescritos. Lamento muito pois os três estavam na minha lista. O Sesc é uma instituição que sempre elogiamos pelo ótimo serviço que habitualmente presta. Mas, contratando um serviço terceirizado tão relevante sem se preocupar com a qualidade que será oferecida, vai contra a própria reputação do Sesc, uma verdadeira quebra de contrato, não um contrato escrito e documentado mas um contrato moral baseado na confiabilidade e credibilidade conquistadas ao longo do tempo.

Bem, que este fato lamentável sirva para o Sesc como um alerta em contratações futuras. Não basta ter o menor preço, o serviço tem de ser qualificado. Afinal este é um direito nosso, clientes assíduos do Sesc, do qual certamente não abriremos mão.

por Sidney Tobias de Souza

Fonte: e-mail enviado para o blog

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